Foto/Video: divulgação
Já cantei muitas músicas do repertório de Érika Machado: “No Cimento”, “As Coisas”, “Secador, Maçã & Lente”, “Solitária Secretária da Agência de Turismo”… Dessa vez escolhi minha preferida do disco mais novo de Érika, mais uma parceria bacana dela com a Cecília Silveira: “Tão Longe”. O video faz parte do programa Compacto Petrobrás. Quem quiser ver tudo com direito a entrevista está aqui.

Outro momento interessante em documentado apenas em video para internet, são os programinhas depoimento do Natura Musical. Também participei. Como não sei se todo mundo já visitou essa página deles, fica aqui minha indicação.

Filhotes resgatados em tratamento no Bosque da Ciência, Manaus, AM
Texto publicado no jornal Estado de Minas, 02/11/2010
Estou no Amazonas com minha família. Das últimas vezes em que estive aqui, foi apenas profissionalmente. Chegava no aeroporto, ia pro hotel dar entrevistas, almoço, passagem de som, hotel, banho, comida, show e aeroporto outra vez. Guardo uma foto antiga, no colo da minha mãe, em frente ao Teatro Amazonas, quando devia ter menos de 1 ano. Sempre que minha filha me perguntava, dizia que era um dos teatros mais lindos do mundo. Mas não me lembrava nadinha do seu interior, claro. Ontem, estivemos lá e agora ficou a vontade de me apresentar num lugar tão importante e belo… Deixei o contato com um dos funcionários para ser entregue à diretora artística. Feriado nem tão completamente desligada do trabalho assim.
Antes de partir para a Estação Ecológica de Anavilhanas, o maior arquipélago fluvial do mundo, situado no Rio Negro, teríamos apenas um dia em Manaus para conhecer algumas das atrações principais. Seguindo a dica do meu irmão, que esteve aqui recentemente, fomos direto ao Bosque da Ciência, mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Lá vivem cerca de 40 peixes-bois, entre adultos e filhotes – a maior parte órfã de mães brutalmente caçadas, mesmo com a proibição que vigora desde os anos 1970. O motorista do táxi que nos levou já tinha comentado sobre a situação crítica que ocorre no momento por conta de uma das piores secas na região amazônica.
O peixe-boi sofre muito, pois fica ainda mais vulnerável à caça. Quase 10 animais são abatidos por dia apenas numa das regiões da bacia, número muito grande para uma espécie ameaçada de extinção. Esse animal lento precisa vir à superfície para respirar, pois é mamífero herbívoro. Muito dócil, quase desapareceu do mapa quando a caça era indiscriminada. Além de sua carne ser muito apreciada pelas populações ribeirinhas, o óleo e o couro eram exportados para a Europa. Um dos usos do couro grosso e resistente era para as correias das máquinas de costura antigas, aquelas de nossas vovós…
Por coincidência, uma equipe de jornalismo da Rede Record nacional estava fazendo matéria especial sobre o problema da matança de peixes-bois na estação da seca. Acabei dando entrevista sobre o assunto. Fui convidada pelos funcionários do Bosque a ver de pertinho os filhotes em recuperação. Seis animaizinhos nadando em pequenos tanques reservados para esse fim. Nossa filha ficou muito interessada e logo disse: Vamos lá, mamãe?. Só criança mesmo pede, sem qualquer constrangimento: Posso passar a mão nele, moço?. Falei que não devia, pois estavam em recuperação, mas o biólogo contou que eles adoram carinho. Claro que pode, não precisa ter medo. Vem, chame eles aqui colocando a mão na água… Agitou um pouco a superfície do tanque e lá vieram os dois filhotes, abrindo e fechando as enormes narinas, com olhinhos mínimos pro seu tamanho.
A primeira sensação é de que são como cachorrinhos aquáticos. A gente se esquece da nossa familiaridade com os mamíferos… Ficamos acostumados com gatos e cães, mas todos os outros bichos que interagem com os humanos pelo instinto curioso e carinhoso são sempre encantadores.
Passamos a mão nos peixes-bois e fizemos afagos embaixo do pescoço. Que toque macio tem a pele! Completamente diferente de tudo o que já tinha sentido em alguma espécie viva. Essa espécie amazônica tem o couro bem lisinho. Eles ficaram ali, o tempo todo, olhando pra gente. Por isso são presa fácil. Quando não recebem apenas olhares de contemplação e gestos amorosos, são arpoados ou torturados com rolhas colocadas nas narinas. Assim, sufocam e morrem. Uma forma tão cruel de abate que é difícil acreditar.
Depois de nos proporcionar esse encontro incrível e de nos contar algumas histórias sobre o massacre de outras espécies, o biólogo nos revelou que há uma mamãe peixe-boi no tanque maior. Ela beira os 50 anos e já adotou diversos filhotes órfãos, que ao longo dos anos chegaram para reabilitação. Talvez seja esse tipo de exemplo que os humanos deveriam seguir em relação aos animais.
Ajuda muito a experiência de presenciar um problema que a princípio parece tão distante de nós, moradores de grandes cidades do Sudeste do Brasil. Depois de ver esses bichos de perto, de tocar alguns deles, alguma coisa mudou em meu coração. Passei a me sentir, de alguma forma, também responsável por eles.

Leitura recomendada: De Volta Pra Casa, INPA,2009. Organizadores Jone César Fernandes Silva e Vera Maria Ferreira da Silva. Adaptação do livro ÓRFÃO DAS ÁGUAS, de Wilson Nogueira. Ilustrações Adão Iturrusgarai.