Houve um momento na carreira da banda que alguém nos disse que era melhor ter um segurança na equipe pois às vezes nos shows que fazemos por aí isso não é lá muito organizado. Foi então que apareceu o Evaristo, indicado por muita gente como a melhor pessoa pra cuidar do Pato Fu. “Ele combina com vocês”. Acho que no fim acabamos sempre trabalhando com aqueles que combinam mais com a gente porque a vida na estrada em turnês é feita de uma convivência muito estreita.
Evaristo chegou sério, enorme, óculos escuros. Quem o via de longe temia ter que passar por ele. Mas foi num dos primeiros dias de convívio que descobrimos que ele tinha uma das risadas mais engraçadas do mundo. Do tipo que contagiava o ambiente. Ouvimos uns guinchos fininhos lá na parte da frente do ônibus que era onde ele gostava de viajar. “Evaristo? Você tá passando mal?”. Tava nada, tava é morrendo de rir de uma piada. Ele era assim mesmo. Perdia o freio. Andava sempre ouvindo música com seus fones de ouvido. Adorava cantar num pseudo-inglês-embromation. Em algumas passagens de som, se o tempo estava sobrando, ele ia pro meio do palco dar um tostão de sua voz, com poses perfeitas de crooner. Um dia vimos o Eva – apelido carinhoso incompreensível pra quem ouvia de fora – dançar. Ele dançava soul, funk, black music como ninguém. Com certeza seria da turma de Tony Tornado, Nelson Triunfo, James Brown e The Jackson Five se morasse em alguma daquelas vizinhanças… Havia um momento do show que não resistíamos e chamávamos o Eva pra dançar. Era um espetáculo. A plateia não acreditava. E ele saía aclamado do palco. “Êêêvaristo, Êêêvaristo, Êêêvaristo eu estou aqui!”. Era o grito de guerra que a gente puxava com o público numa paródia da música de Roberto e Erasmo.
Depois de um show há mais de dez anos, quando eu era jovem e bebi um pouco além da conta, ele não teve dúvidas: chegando ao hotel no interior de Minas, sem elevador, me carregou nos braços e me levou por três andares sem qualquer esforço aparente. No outro dia prometi a ele que nunca mais teria que fazer isso de novo. E nunca mais precisou.
Eva era muito elegante. Tanto que no início só trabalhava de paletó e gravata. Finíssimo. Eu cheguei a lhe dar de presente umas gravatas mais divertidas pra quebrar a sobriedade. Até que ele ficou mais desencanado e passou a usar as camisetas pólo da nossa produção. Mas sempre com calça social, cinto e sapato lustrado. Vaidoso, tinha as unhas feitas no capricho, cabelo bem cortado e usava belos relógios de pulso.
Quem conhecia bem o Eva sabia que o semblante sério se desmanchava num grande sorriso de menino a qualquer “bom dia”. O outro apelido dele era BO – bê ó. Dependendo da turma era chamado de um ou de outro. Ou dos dois ao mesmo tempo. Como ele sofria acompanhando os jogos do seu Atlético à distância… Nas viagens ele aproveitava as paradas e ligava pra algum amigo tentando saber dos resultados da rodada. Por um tempo ele também cuidou das Pomponetes do Galo. A gente via nos programas de esporte ele ali, atrás do gol. Às vezes em momentos de lances perigosos levava as mãos à cabeça, desesperado. “Olha o BO!”, sabíamos de longe que era ele.
Uma vez durante um voo, vimos o Eva passar um bilhete pra comissária de bordo. Ela o pegou toda sorridente e abriu pra ler. Todos ficamos curiosos pra ver a expressão dela. No lugar de algum galanteio que possivelmente ela mesma esperava, Eva escreveu: “me dá mais um lanchinho?”. E ganhou!
Faz uns três anos que ele não trabalhava mais com a gente, eu dizia brincando que Eva tinha fugido com o Victor & Leo. Teve uma oportunidade muito boa e mudou-se pra Uberlândia com a família. Na verdade, acho que a gente não precisava mais de um segurança há um bom tempo, mas o Evaristo tinha se tornado bem mais que isso. Ele ajudava todo mundo em qualquer que fosse a necessidade. Querido demais.
Nosso grande menino Evaristo nos deixou semana passada. Todos os fãs que o conheceram nos escreveram tristes. Acho que nem mesmo ele imaginava o tamanho do seu próprio fã-clube. Estive com a família e amigos no momento de despedida desse homem tão digno, carinhoso e competente. Não me esqueço a noite, numa paragem distante em que uma autoridade local, anunciadamente armada, quis subir ao palco com toda a sua família, pra “ver o show mais de perto”. Eva de peito aberto, segurando apenas uma lanterna, falou firme e com educação: “só depois que me matar”. O homem deu meia-volta e rugiu: “esse é cabra-macho mesmo, vambora!”.
João Evaristo Cunha se foi, prestes a completar 50 anos. A gente fica aqui sem respostas e com saudade. Mas os Céus ganharam o melhor anjo da guarda de todos os tempos.
Texto publicado em 18.01.2011 em minha coluna nos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense












