ELE ME DEU UM GUARDA-CHUVA VERMELHO

fotoFoto: Cristiano Trad

Eu estava a trabalho em São Paulo e pra variar um pouco dos almoços do hotel, fui com o pessoal da equipe comer numa daquelas enormes padarias que servem de tudo. A gente tinha pouco tempo antes de sair pra passagem de som e a solução vizinha era boa, além de barata.

Na hora de entrar, quase complico a saída do caixa. “É pelo outro lado.” – a moça me informou educadamente. Aí um rapaz que estava pagando sua conta olha pra mim e fala pra moça do caixa (não sei porque não perguntam direto pra gente…). “Ela não é aquela…?” A funcionária me olhou de novo e disse (pra ele): “Acho que é!”. Como tinha um bocado de gente também querendo entrar na padaria, acenei pra ele e me dirigi ao fundo onde havia um salão para refeições. Aí vejo o rapaz que estava no caixa entregando um guarda-chuva pela janela pra minha produtora, apontando pra mim. E foi embora rapidamente.

– Ele disse que esse guarda-chuva é pra você.

– Como assim?

– É novinho. Nunca foi usado.

– Ele era vendedor de guarda-chuva?

– Não parecia.

– É. Tinha cara de estudante ainda… Que estranho!

– Ele falou que você parece ser simpática como nas entrevistas.

– E me deu o guarda-chuva?

– É. Olha que não é um guarda-chuva qualquer…

– Bacana ele.

– O guarda-chuva?

– O moço. O que faz uma pessoa dar um guarda-chuva assim do nada pra outra pessoa? Pode ser que ele goste demais de alguma música minha, né? Mas péra aí, ele disse o meu nome?

– Não.

– Será que não tá me confundindo com outra pessoa? Muitas vezes me confundem com a Soninha, dependendo do corte de cabelo… Ela também é confundida comigo. Já até demos autógrafos e tiramos fotos “trocadas”.

– Se confundiu, agora ele já foi embora e você ganhou um guarda-chuva!

Depois do almoço, ao sair da padaria, começou a chover e inaugurei o meu presente inesperado. Ainda por cima era automático! Fui andando comendo um chocolate, bem abrigada da chuva quando percebi uma etiqueta pendurada numa das extremidades. Era novinho mesmo.

Depois de São Paulo eu iria para Bahia para duas apresentações. A gente estava com muita bagagem pra levar em cima no avião: laptops, violões e como um amigo meu iria ficar mais um dia na capital paulista, resolvi deixar o guarda-chuva para que ele usasse. Era bem cedo e eu não queria acordá-lo. Assim, antes de seguir para o aeroporto, encostei o guarda-chuva na porta do seu quarto. Pensava que assim seria um jeito de passar adiante a utilidade daquele objeto que chegou a mim de uma forma inusitada. Nem deixei recado.

Três dias depois, já de volta a Belo Horizonte, esse meu amigo que mora em Londres e estava hospedado aqui em casa, me trouxe de volta o guarda-chuva vermelho. “Olha o seu guarda-chuva! Usei lá em São Paulo e aqui, obrigado.” E como choveu!

São coisas inexplicáveis. O guarda-chuva da minha filha rasgou. A minha sombrinha acabou ficando presa no carro do meu marido estacionado no aeroporto por alguns dias… De repente eu precisei muito de um guarda-chuva e aqui está esse objeto vermelho, presente simpático e útil, talvez até por engano, que eu nem agradeci e nem entendi direito na hora.

Ei, obrigada, moço!

08 de fevereiro de 2008

A FILA E OS NÚMEROS

NinaFoto: Fernanda Takai

Seu Osvaldo voltava pra casa depois de levar a netinha à escola quando viu uma fila enorme dobrando a esquina. Era começo de tarde de um dia abafado e ele a toda hora tirava o lenço do bolso pra enxugar a testa. Parou e ficou olhando aquele monte de gente na calçada. Seguiu aquele movimento com a vista curta até onde pôde alcançar. Viu um vizinho seu e resolveu perguntar:

– É fila de emprego?

– Não. É pra loteria acumulada! Você não viu o tamanho do prêmio que tão pagando?

– Nem reparei… bem, deixa eu ir.

– Não vai fazer uma fezinha?

– Rapaz, olha o tamanho dessa fila… se eu ficar aqui deixo de fazer o resto das coisas que tenho que fazer hoje.

– Mas é por uma boa causa, seu Osvaldo! Imagina o senhor, que nem tava esperando nada, parou aqui por acaso… vai que ganha?

– Esse pessoal todo num tem mais nada pra fazer não?

– Alguns tem, outros justamente por não terem nada é que estão aqui.

– Vamos lá, seu Osvaldo! Ainda dizem que essa lotérica é pé quente! Um dos maiores prêmios da história saiu aqui, nos anos 70.

– Vixe, mas isso foi há mais de trinta anos…

– Pois então, tá na hora de sair mais um!

Seu Osvaldo coçou a cabeça e pensou na lista de compras que tinha no bolso, no carro do filho que precisava levar pra revisão, na mulher que estava esperando ele pra arrumar um canteiro do jardim…

– Tá bem. Afinal, a sorte pode vir quando a gente menos espera, né?

Entrou na fila. Atrás dele,cada vez mais gente. A serpente de pessoas foi se tornando imensa. Todos foram deixando de lado os afazeres, atraídos pela oportunidade. Qualquer um que passasse, logo encontrava motivo pra se juntar àquela multidão organizada.

Muita gente se atrasou pra volta ao trabalho, pra reuniões, pra dar comida pro cachorro, pra buscar o pão quente na padaria, pra colocar encomendas no correio, pra buscar alguém, pra desentupir pias, pra dar e ter aulas, pra dar beijos na pessoa amada.

Seu Osvaldo depois de horas conseguiu voltar pra casa. Achou um bilhete de sua mulher:

Querido, nossa vizinha ligou dizendo que a loteria tá acumulada e a gente não podia deixar de jogar também. Vou pra lá”.

Ele tirou do bolso o bilhete de loteria com os números de aniversário dele, da mulher, dos filhos, data de casamento e nascimento da primeira netinha e viu que não ia dar mais tempo de fazer outra coisa se não voltar à porta da escola e avisar a mulher que estava na fila. Ao avistar aquela senhora por quem era apaixonado há quarenta anos gritou:

– Suzana, olha! Já tá aqui o nosso bilhete premiado!

Publicado no jornal Estado de Minas em 02.10.2008

Nota da mamãe: aniversário da Nina

FOI ASSIM COM VOCÊ TAMBÉM?

IMG_0514Foto: Fernanda Takai

É comum a gente ouvir pais e mães dizerem que trocariam de lugar com os filhos quando eles estão passando por uma situação difícil. E se fosse necessário, dariam a própria vida por eles.

Sempre que está com medo de fazer alguma coisa pela primeira vez, a minha filha me pergunta, se quando eu era pequenininha, foi assim também. Na maior parte das situações do dia a dia, posso responder sem pensar: claro, eu também já fiz isso! Experimentar uma comida nova, mudar de escola, dormir sozinha na casa de uma coleguinha, cuidar de um novo animal de estimação, ajudar com a louça na cozinha, fazer a primeira prova… Mas semana passada engoli seco quando ela estava toda pronta pra entrar num bloco cirúrgico para reparar uma fratura no braço.

Cheguei perto dela, já toda vestida de verde, touquinha na cabeça e ouvi o seu coração batendo mais rápido que o de um beija-flor. A testa franzida em preocupação, os olhos cheios de lágrimas que vez por outra derramavam uma longa gota. “Mamãe, quando você quebrou o braço, você teve que fazer isso?”. Antes de responder, me veio um filminho na cabeça. Nunca quebrei nada. Nenhuma parte do corpo. A única cirurgia que fiz foi uma cesariana. E essa pra mim não conta porque foi por um motivo de alegria, não de acidente. No máximo, quase estraçalhei meu dedo médio na porta do estúdio, quando tive que dar alguns pontos e retirar a unha quase toda. Lembrei-me das extrações de siso… “Mamãe, você fez isso também!???”, ela estava aflita, querendo cumplicidade.

Expliquei que algumas pessoas quebram o braço, perna ou outras partes do corpo em fases diferentes da vida. Às vezes ainda criancinha, outras já velhinhos. E muitas, mas muitas vezes mesmo, quando já são adultos. Então se eu quebrar o meu braço algum dia, ela vai poder me ajudar me dizendo que tudo vai dar certo. Ela me olhou desconfiada porque não foi a resposta padrão. Suspirou fundo e disse: “você pode ficar comigo lá dentro?”. Segurei as minhas lágrimas e uma fria mãozinha esquerda apertou forte a minha. “Posso”.

Fiquei com ela até que apagasse sob os efeitos da anestesia e logo saí da sala. Deu tudo certo. Quando ela voltou a si, já na sala de recuperação, eu estava de novo ao seu lado. Ainda grogue ela me perguntou: “eu dormi?”. Dormiu sim, fez a cirurgia e nem chorou! Foi nota dez! Ela viu o soro sendo aplicado na mão do braço que estava bom e se assustou. “O outro também tá machucado, mamãe?”. Não, é só um remedinho que está entrando no seu corpo, depois eles tiram – tranquilizei-a.

Nos dois dias que se seguiram ela reclamou um tanto de dor. Parecia sensível demais a qualquer ideia de aproximação do braço. Ficava com um semblante tenso. Choramingava sempre. Era de partir o coração. E a nossa menina de sete anos está justamente no seu momento mais metafísico, pensando e perguntando sempre sobre idade, vida, morte. Mas é incrível a capacidade de algumas pessoas mudarem o foco de um dia pro outro. Com ajuda de gente sensível, claro.

Estive na escola, onde a professora mandou um bilhetinho carinhoso com todas as lições que ela tinha perdido, uma amiguinha veio visitá-la, amigos grandes também e os avós vieram trazendo um bocado de revistinhas que ela adora. Voltou a dormir em sua cama, pois até então só queria ficar num sofá que deixava o braço mais confortável. Toma o remédio pra dor só à noite. E está sorrindo! Perguntei o que tinha feito ela se animar tanto. “Mamãe, eu estou muito satisfeita. Sabe por quê? As pessoas gostam mesmo de mim, não é só você. Todo mundo quer que eu fique boa!”.

Abracei com jeitinho a menina de asa quebrada e falei que ela é a garota mais corajosa, bacana e bonitinha que eu já conheci na vida. Depois de vê-la mudar de atitude e humor com tanta convicção, não me permitirei mais desanimar diante da dor. E quando for a minha própria, espero que ela esteja por perto pra apertar a minha mão ao lhe perguntar: “Filha, foi assim com você também?”.

Texto publicado em 05. 04. 2011 no Jornal Estado de Minas

Quase à Vista!

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Amigos visitantes,

Tudo em obras, tudo meio assim assado. Disco novo saindo em março. Rearranjando espaços. Abandonei um tanto o site. Me desculpem.

Mas… quando ele voltar, valerá a pena.

Ano do unicórnio!

: -))