O que é que a banana tem?

IMG_8853Foto: Fernanda Takai

Desde pequenina, Roberta tinha mania de cortar as partes pretas da banana. “Manhê, tira a bunda da banana pra mim?” Ela não comia nem as extremidades da fruta. “Tem um treco preto, mãe. Num quero.” A mãe tirava.

Quando cresceu, Roberta continuava a fazer a mesma coisa. Descascava a banana, cortava as pontinhas, catava os fiozinhos que chamava de “cabelo”, tirava as partes escuras ou machucadas e só depois comia. Mesmo se fosse fazer banana amassada com aveia, fazia questão de ter a fruta sem aquelas coisas.

Um dia voltou pra casa morrendo de fome e só tinha uma banana na fruteira. A mãe ainda não tinha feito a janta. Limpou a fruta como de costume e ao dar a primeira mordida percebeu que estava escura bem no meio. Ela ficou olhando a banana sem saber se comia ou não.

O que é que foi? Tá me estranhando ainda? – falou a banana impaciente.

O QUE SE PASSA NA CABEÇA DE…

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Foto: Fernanda Takai

Tudo calmo. Tudo em ordem. La la la ri… epa! O que é aquela coisa nova ali no meio do jardim? Parece que está atacando o gramado. Parece uma grama má comendo a outra grama. Vou resolver isso. Iáááááá! Cava cava. Rasga rasga. Agora sim, essa aí não causa mais problema.”

– Nãooooo! Vem ver o que ela fez com a grama nova que a gente tinha plantado! Espalhou tudo pelo jardim! Já pro canil!

Hummm… a noite tá tão fresquinha. Boa pra ficar deitada de barriga pra cima olhando a lua… Ué, a mangueira de água tá pingando. Já sei! Nhac nhac. Rasga rasga. Amassa morde. Consegui soltar. Não pinga mais. Ufa! Agora a água tá solta e livre.”

– Gente, a mangueira acordou toda rasgada e a água tá vazando direto. Só pode ter sido… Já pro canil!

Outro dia eu vi um moço arrancando umas folhas dessas aqui. Vou ajudar. Quando vier de novo, já vai estar pronto. Nhoc nhoc. Escarafuncha. Cava. Rasga. Nhac. Quatro vezes. Ficou tudo limpinho. Acho até que vou ganhar um biscoito…”

– Não acredito! Você acabou com meu canteiro de bromélias! As quatro de uma vez! Ficaram só no toquinho. Já pro canil!

Ei, eu quero ir. Me levem com vocês! Por que tão levando só a outra? Mesmo se for vacina, eu quero também. Eu quero ir! Não fechem o portão! Como é que eu faço? Preciso passar. Talvez se eu começar a roer a madeira… É tão dura! Roc roc. Nhac nhoc. Grunfa grunfa. Olha! Abriu um buraquinho, mas fiquei cansada. Vou beber água depois continuo. Eu alcanço vocês.”

– O quê?! Olha o rombo que ela fez no portão. Gente, nem cinco minutos! Se eu eu não tivesse esquecido os documentos do carro ia ter comido o portão inteiro. Já pro canil!

A menina deixou a bola nova cair embaixo do carro. Vou pegar pra ela. Vrunf vrunf. Chumba chumba. Peguei. Ops. Acho que furou. Vou levar pra deixar na porta entrada da casa. Que gostosinho esse plástico! Nhac nhec nhic nhoc nhuc. Delícia. Acho melhor sumir com o resto pra ela não ficar triste.”

– Adivinha onde foi parar a bola que você tava procurando? Olha aí o cocô colorido de rosa pelo jardim… Já pro canil!

O vento tá soprando forte. Tem uma blusa quase caindo do varal. Vou pegar pra ela não cair no chão. Arf urf! Melhor levar pra lavanderia. Deixo perto daquele negócio branco que lava um monte de roupa de uma vez só. Um passarinho! Puxa, com essa blusa na boca é mais difícil correr. Xi… voou.”

– Aí você foi longe demais! Minha blusa preferida rasgada e suja de terra… o que se passa na cabeça dessa cachorrinha? Já pro canil!

Esse pessoal é muito distraído. Olha lá: a janela do carro ficou aberta. Acho que se eu me esforçar, subo pela porta e fico lá dentro tomando conta…”

– Papai, acho que alguém arranhou a porta do seu carro inteirinha!

Pode deixar que eu vou pro canil sozinha. Nem precisa me falar mais isso, pessoal. Já aprendi. Viu, como sou uma cachorra legal? Eu amo essa família!”

03 de agosto de 2010

A Admiradora Secreta do Homem-Bala

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O circo Wurlitzer já tinha percorrido boa parte das vilas quando no final dos anos 60 chegou à Polenta do Norte. Como era de costume, antes de se instalar no terreno escolhido para aquela temporada, fazia um animado desfile conclamando a população aos espetáculos. Todos estampavam no rosto o melhor sorriso e acenam efusivamente ao mesmo tempo que jogavam jujubas pro alto. A criançada ia atrás, catando do chão e colocando na boca as balinhas de goma, mesmo que as mães reclamassem um tanto. Enchiam os bolsos e iam comê-las meladas, cheias de fiapos de pano até o fim daquele dia.

Depois a caravana ia se ajeitar, com as bençãos do padre local e o aval do prefeito que ganhava logo um punhado de convites pra distribuir aos seus chegados. Todos tinham mais de uma função ali. O mágico era também o cozinheiro. A moça da bilheteria era a malabarista. Os três palhaços eram os encarregados da manutenção da lona. E o homem-bala era o tratador dos animais. Além do número de maior sucesso da noite – quando voava em seu traje prateado, cuspido pelo enorme canhão pintado de vermelho e preto – era ele que entrava atrás dos elefantes para apanhar as enormes pelotas de cocô que soltavam no meio picadeiro. Para seu enorme constrangimento e diversão geral das famílias, aquilo era mais engraçado que qualquer palhaçada. Ele achava o cúmulo ter que ir do êxtase voador à figura corcunda que empurrava um carrinho de mão, uma pá e saía acompanhado de um enorme fedor. Fazia de tudo pra não ser reconhecido. Colocava óculos, gorro, macacão folgado e se encolhia de um jeito que mais parecia alguém com problema na coluna.

O homem-bala fazia as mocinhas e mocinhos suspirarem. Atlético, ágil, poderoso. Mas uma garota em especial tinha o coração dedicado a ele. Era Anita, filha da Mulher Barbada, que por causa disso era ignorada pela maioria. Diziam que logo iam aparecer pelos em seu rosto também. A genética da mãe falaria mais forte. Uma questão de tempo. Pois Anita era quem cuidava da rede de segurança em que Otto, o homem-bala, pousava depois de voar de um extremo ao outro do picadeiro. Antes, preparava o número da mãe que além da barba, possuía uma força incomum. Ela levantava halteres, puxava pianos, carregava dois homens de uma vez só. Depois de levar a mãe de volta ao trailer, ia checar as amarras da rede de Otto. Uma por uma. Eram mais de cinquenta. Como ele era a última atração da noite, havia tempo de sobra para que ela deixasse tudo pronto.

Otto nunca tomou conhecimento do amor de Anita porque era apaixonado pela filha do dono do circo – um carrasco que o colocou pra limpar o cocô do elefante de propósito porque não queria que sua linda herdeira se casasse com ele.

Anita passou a mandar cartas anônimas de amor a Otto. Nelas, prometia que daria sua vida pela dele caso fosse preciso. Também chegou a se oferecer para recolher as fezes dos animais em seu lugar. Isso o encucou. “Então alguém da plateia sabe…”. Ele ficou apreensivo. A moça contava que assistia a todos os espetáculos e viajaria o mundo todo atrás dele. Mas Otto nem sonhava que fosse Anita.

Mas em Polenta do Norte foi diferente. Naquela noite o homem-bala voou em sua roupa de prata mas algo deu errado. No momento em que foi cuspido pelo canhão, ele percebeu que voava um pouco fora de rota. Alguém tinha mexido na mira. O dono do circo parecia sorrir lhe dando tchauzinho lá debaixo. Nas frações de segundos em que isso acontecia ele teve certeza da morte. Fechou os olhos esperando o impacto e nem viu quando a garota franzina correu para aparar sua queda. “Anita? Como você fez isso?”, ele perguntou ainda em choque. “Acho que herdei a força de minha mãe”. Sem querer, ela o apertou no colo, como se fosse um brinquedo. O público urrava delirando com a cena extraordinária que tinham visto.

Foi aí que Otto, emocionado, viu uma pelugem rala por todo o rosto dela. E sem ter como lutar contra aquele desejo estranho, soube que Anita era a mulher barbada de sua vida.

22.03.2011

UMA ALMA AOS SETE ANOS

seteFoto: Fernanda Takai

– Você sabe como é a alma, mamãe?

– Hummm… ninguém sabe direito.

– Eu sei! É como se fosse uma fumacinha que mora dentro da gente. Quando alguém fica muito machucado, ela vaza por um buraquinho e vai embora. Quando nosso corpo fica sem alma, ele morre.

– Como você descobriu isso?

– Eu aprendi com o Penadinho na revistinha… mas alma é igual a fantasma, mamãe?

– Depende… Você acredita em fantasma?

– Fantasmas não existem.

– E o Penadinho?

– Mãe, ele é do mundo da imaginação. Você não presta atenção?

ELE ME DEU UM GUARDA-CHUVA VERMELHO

fotoFoto: Cristiano Trad

Eu estava a trabalho em São Paulo e pra variar um pouco dos almoços do hotel, fui com o pessoal da equipe comer numa daquelas enormes padarias que servem de tudo. A gente tinha pouco tempo antes de sair pra passagem de som e a solução vizinha era boa, além de barata.

Na hora de entrar, quase complico a saída do caixa. “É pelo outro lado.” – a moça me informou educadamente. Aí um rapaz que estava pagando sua conta olha pra mim e fala pra moça do caixa (não sei porque não perguntam direto pra gente…). “Ela não é aquela…?” A funcionária me olhou de novo e disse (pra ele): “Acho que é!”. Como tinha um bocado de gente também querendo entrar na padaria, acenei pra ele e me dirigi ao fundo onde havia um salão para refeições. Aí vejo o rapaz que estava no caixa entregando um guarda-chuva pela janela pra minha produtora, apontando pra mim. E foi embora rapidamente.

– Ele disse que esse guarda-chuva é pra você.

– Como assim?

– É novinho. Nunca foi usado.

– Ele era vendedor de guarda-chuva?

– Não parecia.

– É. Tinha cara de estudante ainda… Que estranho!

– Ele falou que você parece ser simpática como nas entrevistas.

– E me deu o guarda-chuva?

– É. Olha que não é um guarda-chuva qualquer…

– Bacana ele.

– O guarda-chuva?

– O moço. O que faz uma pessoa dar um guarda-chuva assim do nada pra outra pessoa? Pode ser que ele goste demais de alguma música minha, né? Mas péra aí, ele disse o meu nome?

– Não.

– Será que não tá me confundindo com outra pessoa? Muitas vezes me confundem com a Soninha, dependendo do corte de cabelo… Ela também é confundida comigo. Já até demos autógrafos e tiramos fotos “trocadas”.

– Se confundiu, agora ele já foi embora e você ganhou um guarda-chuva!

Depois do almoço, ao sair da padaria, começou a chover e inaugurei o meu presente inesperado. Ainda por cima era automático! Fui andando comendo um chocolate, bem abrigada da chuva quando percebi uma etiqueta pendurada numa das extremidades. Era novinho mesmo.

Depois de São Paulo eu iria para Bahia para duas apresentações. A gente estava com muita bagagem pra levar em cima no avião: laptops, violões e como um amigo meu iria ficar mais um dia na capital paulista, resolvi deixar o guarda-chuva para que ele usasse. Era bem cedo e eu não queria acordá-lo. Assim, antes de seguir para o aeroporto, encostei o guarda-chuva na porta do seu quarto. Pensava que assim seria um jeito de passar adiante a utilidade daquele objeto que chegou a mim de uma forma inusitada. Nem deixei recado.

Três dias depois, já de volta a Belo Horizonte, esse meu amigo que mora em Londres e estava hospedado aqui em casa, me trouxe de volta o guarda-chuva vermelho. “Olha o seu guarda-chuva! Usei lá em São Paulo e aqui, obrigado.” E como choveu!

São coisas inexplicáveis. O guarda-chuva da minha filha rasgou. A minha sombrinha acabou ficando presa no carro do meu marido estacionado no aeroporto por alguns dias… De repente eu precisei muito de um guarda-chuva e aqui está esse objeto vermelho, presente simpático e útil, talvez até por engano, que eu nem agradeci e nem entendi direito na hora.

Ei, obrigada, moço!

08 de fevereiro de 2008

A FILA E OS NÚMEROS

NinaFoto: Fernanda Takai

Seu Osvaldo voltava pra casa depois de levar a netinha à escola quando viu uma fila enorme dobrando a esquina. Era começo de tarde de um dia abafado e ele a toda hora tirava o lenço do bolso pra enxugar a testa. Parou e ficou olhando aquele monte de gente na calçada. Seguiu aquele movimento com a vista curta até onde pôde alcançar. Viu um vizinho seu e resolveu perguntar:

– É fila de emprego?

– Não. É pra loteria acumulada! Você não viu o tamanho do prêmio que tão pagando?

– Nem reparei… bem, deixa eu ir.

– Não vai fazer uma fezinha?

– Rapaz, olha o tamanho dessa fila… se eu ficar aqui deixo de fazer o resto das coisas que tenho que fazer hoje.

– Mas é por uma boa causa, seu Osvaldo! Imagina o senhor, que nem tava esperando nada, parou aqui por acaso… vai que ganha?

– Esse pessoal todo num tem mais nada pra fazer não?

– Alguns tem, outros justamente por não terem nada é que estão aqui.

– Vamos lá, seu Osvaldo! Ainda dizem que essa lotérica é pé quente! Um dos maiores prêmios da história saiu aqui, nos anos 70.

– Vixe, mas isso foi há mais de trinta anos…

– Pois então, tá na hora de sair mais um!

Seu Osvaldo coçou a cabeça e pensou na lista de compras que tinha no bolso, no carro do filho que precisava levar pra revisão, na mulher que estava esperando ele pra arrumar um canteiro do jardim…

– Tá bem. Afinal, a sorte pode vir quando a gente menos espera, né?

Entrou na fila. Atrás dele,cada vez mais gente. A serpente de pessoas foi se tornando imensa. Todos foram deixando de lado os afazeres, atraídos pela oportunidade. Qualquer um que passasse, logo encontrava motivo pra se juntar àquela multidão organizada.

Muita gente se atrasou pra volta ao trabalho, pra reuniões, pra dar comida pro cachorro, pra buscar o pão quente na padaria, pra colocar encomendas no correio, pra buscar alguém, pra desentupir pias, pra dar e ter aulas, pra dar beijos na pessoa amada.

Seu Osvaldo depois de horas conseguiu voltar pra casa. Achou um bilhete de sua mulher:

Querido, nossa vizinha ligou dizendo que a loteria tá acumulada e a gente não podia deixar de jogar também. Vou pra lá”.

Ele tirou do bolso o bilhete de loteria com os números de aniversário dele, da mulher, dos filhos, data de casamento e nascimento da primeira netinha e viu que não ia dar mais tempo de fazer outra coisa se não voltar à porta da escola e avisar a mulher que estava na fila. Ao avistar aquela senhora por quem era apaixonado há quarenta anos gritou:

– Suzana, olha! Já tá aqui o nosso bilhete premiado!

Publicado no jornal Estado de Minas em 02.10.2008

Nota da mamãe: aniversário da Nina