Quase à Vista!

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Amigos visitantes,

Tudo em obras, tudo meio assim assado. Disco novo saindo em março. Rearranjando espaços. Abandonei um tanto o site. Me desculpem.

Mas… quando ele voltar, valerá a pena.

Ano do unicórnio!

: -))

Oi Mauricio!

JMFMFoto: arquivo pessoal

Quando conheci o Mauricio de Sousa pessoalmente em 2004, a primeira coisa que disse a ele foi:

- Parece que estou conhecendo um Beatle!

Na hora fiquei sem saber se ele tinha gostado da comparação, mas para um bocado de gente mundo afora, é grande o valor de um Beatle.

Desde muito nova, quando morava na Bahia ainda, já tinha meus k7s preferidos. “A Collection Of Beatles Oldies” estava entre eles. Por influência do meu pai e minha mãe, que também gostavam de Nara Leão, Clara Nunes, música sul-africana e temas de cinema, ouvi de tudo um pouco. Mas havia algo ainda mais atraente e mágico naquelas canções dos Beatles. E eu nem entendia direito as palavras. Acho até que compreendi que havia ainda outro idioma além do Português e Inglês por causa da tal “Michelle”.

Esse valor embutido de coisa boa ser igual a um Beatle sempre me acompanhou.

Várias pessoas da minha idade e das novas gerações aprenderam a ler com os gibis do Mauricio e através de suas histórias tomaram contato com a diversidade geográfica e cultural de nosso país, além de receberem boas doses de diversão.

Então ainda novinha eu pensava:

- Esse Mauricio podia ser um Beatle de tão bom que é!

Não me encontrei com Paul, John, George ou Ringo. Mas posso dizer que ele está muito bem nesse papel de Beatle desenhista. Além de vivíssimo, sua produção é cada vez maior e sempre cultivada por uma proximidade espontânea com seu público.

Mauricio viaja o Brasil todo e muitas vezes também visita terras estrangeiras divulgando seus projetos e suas idéias. Passa horas assinando gibis, tirando fotos, desenhando, conversando com todos e sempre com a expressão feliz no rosto.

Voltando ao meu encontro com ele, era para eu lhe apresentar uma canção nova nossa. Uma que falava justamente de um tema que podemos encontrar nas histórias do Chico Bento e paradoxalmente nas do Astronauta. Sei que o homem do espaço é um de seus personagens preferidos e a percepção de seu criador sobre nossa música talvez despertasse aquele tipo de empatia que move alguns dos momentos mais especiais de nossas vidas. A idéia era fazermos um videoclipe em animação dessa música. Vocês devem estar pensando:

- Que ótimo! Deu tudo certo, né?

Deu não. Por incompatibilidade de agendas e outros detalhes, não conseguimos trabalhar juntos. Era pra ser um videoclipe com os desenhos dele, mas hoje temos um clipe lindo pra essa canção, feito por pessoas extremamente talentosas e sensíveis aqui de Belo Horizonte.

Mas sabe? Não muda nada o que penso sobre o Mauricio. Naquela oportunidade vi de pertinho como ele atenciosamente autografa os mais diversos objetos atendendo a pedidos mais do que pessoais como: “Desenha o Cebolinha comendo pipoca pra mim?” ou “Faz a Mônica dizendo que ama o Ricardo?” E ele na maior paciência na mesa do restaurante, desenhando cada um daqueles desejos.

Ainda tenho que contar que conheci a Magali! A filha dele que mora aqui em Belo Horizonte e é mais legal ainda que no desenho. Foi uma noite muito boa que terminou com o Mauricio cantando num cantinho do Cozinha de Minas, pegando carona no grupo que se apresentava ali. Depois o irmão dele me disse por email que achava que ele queria mesmo era ser cantor…

Eu não estava muito errada quando o cumprimentei daquela forma, afinal.

Ainda fiquei com aquela vontade de um dia trabalharmos juntos, claro.

Navegando pelo portal da Turma da Mônica, encontrei uma seção de projetos não-realizados, coisas que ele criou e não saíram do papel. Sabe o que tem lá? Beatles 4Kids, um desenho dos Beatles, para crianças! Um sonho quase alcançado também.

Isso me deu um alento. As quase conquistas também nos movem.

E ninguém consegue tudo ao mesmo tempo mesmo.

Se um dia eu me encontrasse com o Paul ou o Ringo, pediria:

- Libera lá o Beatles 4Kids… Por favor! O Mauricio é quase um de vocês!

Publicado no jornal Estado de Minas em 27 de maio de 2005

cantorFoto: Fernanda Takai

BICHOS DO JARDIM QUE NÃO SÃO NECESSARIAMENTE MEUS

ramirezFoto: Fernanda Takai

No jardim de casa mora um sapo enorme de nome Ramirez. Não tenho certeza de que é macho, então o nome alternativo é Rã Mires, no caso de ser uma rã fêmea com excesso de peso. Há diferenças entre sapo e rã, eu sei, mas vale a pena o trocadilho. Ele só aparece em dias de chuva e sempre à noite. Apesar do tamanho, é muito discreto. Algumas vezes achei que fosse uma pedra rolada do canteiro até que de repente se moveu em pulos curtos. Certa vez quase o esmaguei quando pisei no que pensava ser um monte de folhas murchas perto do muro. A única ocasião em que o vi de dia, foi quando descobri seu esconderijo dentro de um vaso velho perto de uma jardineira. Ia lavar o recipiente e ao virá-lo para tirar o resto de terra e lama dentro dele, me aparece o Ramirez de uma vez, ficando a alguns centímetros do meu pé. Dei um grito e fiquei brava com ele. Puxa, Ramirez não faz isso comigo! Ele lentamente abriu e fechou os olhos e se enfiou no canteiro outra vez. Depois desse dia nunca mais foi visto à luz do sol. Ele não gosta de escândalo.

Quando voltei a morar em casa, depois de vários anos experimentando a vida em apartamentos, ganhei duas tartarugas.

Só que elas estavam em Maceió. Minha tia tinha um bocado delas e a taxa de fertilidade estava em alta por lá. Sempre que íamos visitá-la, havia mais montinhos de tartarugas. Todos os vizinhos já tinham ganho filhotes e não havia pra quem mais doar. Era tanta tartaruga que o Papai Noel Tartaruga tinha ido visitar até os amigos da escola dos filhos. Os parentes que moravam em Alagoas também já possuíam sua cota de tartaruga. Eu estava a trabalho em Maceió e respondi com a maior alegria: sim! Quero um casal! Mas como é que vou levar as duas no avião? Temos que pegar autorização com o Ibama, mas a essa hora não dá mais tempo… O vôo era no dia seguinte, muito cedo. Combinamos então que numa próxima viagem a Belo Horizonte, algum parente traria as duas pra mim. Escolhi os nomes: Tatá e Hugo. Tatá servia pra macho ou fêmea, tudo bem. E Hugo se fosse mulher, mudaríamos para Huga. Num tem Eva e Evo? É estranho mas depois pega…

Trouxe comigo as fotos delas apenas. Depois de um ano, minha tia tentava embarcar num vôo com uma caixa de sapato com furinhos contendo Tatá, Hugo e umas folhas de alface. Ao passar pelo raio X, a moça perguntou:

- Esses bichinhos são de brinquedo, né?

- Nãããão, são de verdade! Tô levando pra minha sobrinha em Belo Horizonte.

- A senhora está com a liberação do Ibama?

- Vixe, me esqueci.

- Não pode embarcar.

- Moça, pelamordedeus, ela vai ficar muito triste. Tá esperando essas tartarugas faz tempo.

- Senhora, não podemos liberar sem os papéis. A senhora não sabe?

- Sei, mas eu me esqueci… Tava tão feliz em viajar pra lá depois de tanto tempo.

Tatá e Hugo voltaram do aeroporto pro jardim com a minha prima. Passaram-se mais dois anos sem que ninguém de lá viesse. Logo em seguida minha tia vendeu a casa e o comprador – que já tinha dois teiús – ficou com as tartarugas. Ninguém poderia reconhecê-las mais, emboladas naquele monte de cascos.

Aqui em casa o lugar que seria nosso tartarugódromo virou uma hortinha. Aliás, o Ramirez anda cuidando bem dela! Sabiam que os sapos são ótimos jardineiros noturnos?

Publicado no jornal Estado de Minas em 07 de julho de 2006

PLANTAÇÃO REGADA A VENTO

ceu

Eu fico observando de longe. É agora que começam a aparecer em bando, como se fossem uma espécie de pássaros em época de reprodução. Em dia de sol então… é coisa linda de se ver. Um quadro azul com nuvens de algodão se dissolvendo ao fundo. Em primeiro plano aquelas florzinhas aéreas, soluçando vez por outra com os beliscões de seus maestrinhos. Outras florzinhas são acrobatas, acho que trabalham no Circo do Céu, concorrente do Cirque Du Soleil. O melhor desse circo daqui é que o ingresso custa quase nada…

Tem florzinha que não sabe voar direito ainda – sobe um pouquinho e cai. Mas insiste nas tentivas. Pode ficar um dia inteirinho nelas e voltar feliz pra casa. Aprender a voar demora. Então o negócio é aproveitar o caminho enquanto não se chega lá. Eu já tive a minha quando morava perto do Farol da Barra, em Salvador. Mas eu me lembro mais dela nas fotos do que no ar. Era linda! Grande. Parecia uma rainha. Só que era mais de ficar na terra. Também preferia observar as outras. E isso pode. Aí eu percebi que nunca seria uma maestra de florzinha. Só platéia. E gostei mesmo assim.

Se você é do tipo que enxerga bem, vai ver as linhas finas que unem as pessoas às suas florzinhas. Só que tem hora que estão tão altas que nem a vista alcança mais essa ligação. Se você enxerga meio mal de longe, vai ver então uma certa mágica: os maestrinhos mexendo as mãos aqui embaixo e as coisas acontecendo lá em cima. De quem será aquela? E aquela outra?

Há maestrinhos com auxiliares na função. Pai, mãe, irmãos mais velhos, amigos, vô… até vó já vi! Todos se empenham e colocar no lugar mais alto possível a sua florzinha. “Dá linha!”, “corre!”, “mais pra lá!”. Todo mundo olhando pra cima. Um olho aberto, outro fechado por causa do sol. O vento regando o parque. As cores ocupando o céu.

Não queria falar de coisa ruim, mas tem gente que faz desse bonito passatempo uma arma. Insiste em achar que passar cerol na linha é esperteza. Não é. É irresponsabilidade. Maldade até. Cerol machuca. Mata. Tem cada história horrível de pessoas que ficaram seriamente mutiladas por causa disso. É tão baratinho construir um papagaio. Até de saquinho de supermercado usado dá. Não precisa ter medo de perder o seu. A fragilidade das pipas é que as torna tão encantadoras e leves. Tudo bem que elas vão e às vezes não voltam. Aí você terá uma outra, ainda melhor porque o exercício de construí-las vai torná-lo um artesão hábil. Pense nisso.

Meu canteiro preferido de florzinhas voadoras tem sido o Parque Ecológico da Pampulha. Se você ainda não o conhece, esta é uma estação muito boa! Inverno com jeitão de primavera…

Publicado no jornal Estado de Minas em 21 de julho de 2006.

ELE NÃO VEIO

 www.brunosennaimagens.com

Foto: Bruno Senna

Era o dia mais importante da minha vida. E talvez também o da minha mãe que estava mais ansiosa do que eu. Antes disso tudo acontecer, ela me dizia que o meu nascimento tinha sido a coisa mais maravilhosa do mundo pra ela. Agora não. Eu sou a vergonha da família. A vergonha dela. A que não deu certo.

Eu estava linda. Não me acho linda. Mas estava. Dizia um amigo meu que se ele não fosse gay, se apaixonaria por mim naquele instante mesmo. Acreditei.

Acredito na felicidade. Mas ela não existe. Fui trocada por alguém que nem conheço, mas já odeio. Melhor assim. O ódio pode me salvar. Ou me matar de vez. Como é que isso foi me acontecer? Justo quando eu precisava ser só um pouquinho convencional… viro a atração da cidade. Eu passo e todo mundo aponta: é ela!

Agora me lembro… eu devia ter ouvido a minha vó. Fique sozinha, viaje, aproveite a vida. Por que se prender a uma casa? Um homem? Filhos? Seja uma pluma ao vento. Seja feliz! Aí eu sempre pensava se ela era alguém infeliz só porque tinha tudo aquilo. Uma casa linda, família enorme, um homem decente e dedicado. Eu não poderia ter também? Eu não mereço.

Uma pele bonita, cabelos bem lavados e arrumados. Pés e mãos feitos. Maquiagem luminosa. Buffet bem contratado, música suave. Nenhum exagero típico se pronunciava. Tinha conseguido manter o bom gosto, harmonia e dedicação de tanta gente para aquele único dia. Até os parentes que não se falavam há tempos estavam lá.

Ele não veio. Me deixou esperando no altar. Me deixou desmoronando na frente de todos. Senti que as flores das minha tiara murchavam comigo. Meu sorriso foi se transformando em dor tão aguda que nenhuma lágrima conseguiu escapar dos meus olhos. Eu estava seca. Como um deserto que comeu os homens, plantas e animais. Eu praticamente morri vestida de noiva. E todos vieram me acudir com piedade. Mas eu escutei, ah, se escutei… “Bem feito!”. E não foi uma só voz. Várias comentaram a mesma coisa. Nenhuma compaixão verdadeira. Todos queriam me ver cair. E esperaram o dia do meu triunfo se transformar em tragédia.

Ele não veio mesmo. Depois de quatro anos. Ainda estou aqui esperando. Todo sábado, dezoito horas. A mesma igreja enfeitada, o mesmo padre. Eu e meu vestido encardido. Sem ele.

Espero o fim dos cumprimentos do casal daquele dia. E peço pra tirar uma foto com ele apenas. Como todos os outros noivos, ele estranha o meu pedido. Mas aceita constrangido. Vou pra casa e colo no meu álbum mais uma foto de casamento. Que nunca foi o meu.

Publicado no jornal Estado de Minas em 30 de maio de 2008.