VOCÊ POR AQUI?

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Dona Sandrinha, assim como eu e vários míopes que conheço, vez por outra cisma de sair sem óculos ou lente. Só vou ali e já volto… Se estamos em locais muito familiares, pode ser tranquilo mesmo, conhecemos à distância as formas, ou melhor, os vultos que vamos encontrar pelo caminho. Temos uma intuição aguçada, nós que apertamos um tanto os olhos pra ver se a visão melhora sem ter que colocar os óculos a todo momento. Daí você pode ser um míope bem fechado e pouco simpático que resolve ignorar o mundo quando não vê direito ou… ser daquelas pessoas que parecem estar o tempo todo em campanha política. Sai cumprimentando qualquer coisa que se mova. Intui, geralmente de forma errada, que o mundo está se comunicando com você. Mas é sempre melhor ser taxado de extrovertido do que de rabugento. Né?

Aconteceu uma vez em frente à casa em que ela morava… Foi colocar o lixo pra fora e enquanto arrumava os sacos para que não despencassem na rua antes do caminhão passar, viu que do outro lado da avenida estava passando um carro bem devagarzinho. Ela achou parecido com o carro do sogro da filha e pensou que ele estivesse nas redondezas. Com sua visão completamente turva também achou que o motorista se parecia com ele, então acenou e gritou com entusiasmo. “Bom dia! Tudo bem com o senhor?”. O carro não parou e ela pensou ter visto ele acenar de volta. Mesmo de longe e sem saber se estava ainda no campo de visão do retrovisor, continuou acenando.

Na semana seguinte foi fazer uma caminhada – sem os óculos escuros que tinha esquecido na casa do filho do meio – viu o mesmo carro com o mesmo senhor ao volante. Vinha na direção contrária e mais uma vez o pensamento lhe ocorreu: “parece… ah, deve ser ele… ei, bom dia!” – acenou. Dessa vez o carro deu uma buzinadinha e ela então ficou convicta de que sua visão não estava tão ruim afinal. Seguiu satisfeita pelo caminho e nem percebeu que o carro tinha feito o retorno e vinha agora logo atrás dela, bem devagar. Bi-biiiiii! Olhou, viu o automóvel e parou toda animada. Mas não era o sogro da filha, coisa que levou três segundos pra ela perceber quando ele baixou o vidro a meio metro de distância.

– Ei! Ops! Nossa…

– A senhora é muito simpática!

– Ai, me desculpe. Achei que fosse outra pessoa…

– Não. Sou eu mesmo. A senhora me cumprimentou semana passada também, lembra?

– Ah, achei que fosse o sogro da minha filha, o carro dele é igual ao seu e tem o cabelo grisalho como você. Eu tava sem óculos, aliás, como estou agora… por isso lhe cumprimentei de novo.

– Não tem problema, gostei da senhora mesmo assim!

– Vixe, olha… não me leve a mal, mas eu me confundi mesmo.

– É que a senhora parece ser tão alto astral, dá gosto de ver…

– Mas o senhor entendeu errado… eu tava sem óculos.

– Vamos tomar uma água de coco?

– Obrigada, mas eu nem lhe conheço…

– Moro aqui perto, somos quase vizinhos.

– Olha, desculpa falar assim, mas eu sou viúva e não estou procurando namorado.

– Eu também sou viúvo! Olha que coincidência!

– Bom, preciso terminar minha caminhada.

– Tá bem. Acho que entendi errrado. Que pena…

– Me desculpe mais uma vez.

Desde então, depois dos 65 anos, dona Sandrinha nunca mais saiu sem óculos. E eu, tô começando a levar os meus pra todo lugar também…

15 de outubro de 2010

DEIXA COMIGO!

A pequena de dois anos acordou com seu corpinho mandando recado de que precisava ir logo ao banheiro. Ela que estava quase completando o processo lento e subjetivo de largar as fraldas desceu de sua cama ainda sonolenta e foi em direção ao peniquinho que estava no banheiro. Mas antes de cruzar a fronteira do quarto sentiu que algo tinha escapulido. Olhou pra pra baixo e viu escorrendo pelas pernas o número 1 e o número 2. Muito preocupada e sem jeito, abriu a gaveta da cômoda e apanhou um paninho. Com ele foi logo tentando limpar o que estava no chão. Passou pra lá e pra cá. Dobrou, embolou. E quando pensou ter concluído sua limpeza foi avisar a mãe. “Já limpei tudo mamãe…” Ao avistar o chão do quarto da filha, que estava rajado em tons de chocolate, a mãe também sentiu um cheirinho nada agradável. Claro que não conteve o riso, embora a situação fosse crítica.

E a menininha, toda feliz e suja, abraçou sua mamãe… pensando mais uma vez ter feito a coisa certa!

NINA24JUN00027BFoto: Ricardo Koctus

O que é que a banana tem?

IMG_8853Foto: Fernanda Takai

Desde pequenina, Roberta tinha mania de cortar as partes pretas da banana. “Manhê, tira a bunda da banana pra mim?” Ela não comia nem as extremidades da fruta. “Tem um treco preto, mãe. Num quero.” A mãe tirava.

Quando cresceu, Roberta continuava a fazer a mesma coisa. Descascava a banana, cortava as pontinhas, catava os fiozinhos que chamava de “cabelo”, tirava as partes escuras ou machucadas e só depois comia. Mesmo se fosse fazer banana amassada com aveia, fazia questão de ter a fruta sem aquelas coisas.

Um dia voltou pra casa morrendo de fome e só tinha uma banana na fruteira. A mãe ainda não tinha feito a janta. Limpou a fruta como de costume e ao dar a primeira mordida percebeu que estava escura bem no meio. Ela ficou olhando a banana sem saber se comia ou não.

O que é que foi? Tá me estranhando ainda? – falou a banana impaciente.

O QUE SE PASSA NA CABEÇA DE…

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Foto: Fernanda Takai

Tudo calmo. Tudo em ordem. La la la ri… epa! O que é aquela coisa nova ali no meio do jardim? Parece que está atacando o gramado. Parece uma grama má comendo a outra grama. Vou resolver isso. Iáááááá! Cava cava. Rasga rasga. Agora sim, essa aí não causa mais problema.”

– Nãooooo! Vem ver o que ela fez com a grama nova que a gente tinha plantado! Espalhou tudo pelo jardim! Já pro canil!

Hummm… a noite tá tão fresquinha. Boa pra ficar deitada de barriga pra cima olhando a lua… Ué, a mangueira de água tá pingando. Já sei! Nhac nhac. Rasga rasga. Amassa morde. Consegui soltar. Não pinga mais. Ufa! Agora a água tá solta e livre.”

– Gente, a mangueira acordou toda rasgada e a água tá vazando direto. Só pode ter sido… Já pro canil!

Outro dia eu vi um moço arrancando umas folhas dessas aqui. Vou ajudar. Quando vier de novo, já vai estar pronto. Nhoc nhoc. Escarafuncha. Cava. Rasga. Nhac. Quatro vezes. Ficou tudo limpinho. Acho até que vou ganhar um biscoito…”

– Não acredito! Você acabou com meu canteiro de bromélias! As quatro de uma vez! Ficaram só no toquinho. Já pro canil!

Ei, eu quero ir. Me levem com vocês! Por que tão levando só a outra? Mesmo se for vacina, eu quero também. Eu quero ir! Não fechem o portão! Como é que eu faço? Preciso passar. Talvez se eu começar a roer a madeira… É tão dura! Roc roc. Nhac nhoc. Grunfa grunfa. Olha! Abriu um buraquinho, mas fiquei cansada. Vou beber água depois continuo. Eu alcanço vocês.”

– O quê?! Olha o rombo que ela fez no portão. Gente, nem cinco minutos! Se eu eu não tivesse esquecido os documentos do carro ia ter comido o portão inteiro. Já pro canil!

A menina deixou a bola nova cair embaixo do carro. Vou pegar pra ela. Vrunf vrunf. Chumba chumba. Peguei. Ops. Acho que furou. Vou levar pra deixar na porta entrada da casa. Que gostosinho esse plástico! Nhac nhec nhic nhoc nhuc. Delícia. Acho melhor sumir com o resto pra ela não ficar triste.”

– Adivinha onde foi parar a bola que você tava procurando? Olha aí o cocô colorido de rosa pelo jardim… Já pro canil!

O vento tá soprando forte. Tem uma blusa quase caindo do varal. Vou pegar pra ela não cair no chão. Arf urf! Melhor levar pra lavanderia. Deixo perto daquele negócio branco que lava um monte de roupa de uma vez só. Um passarinho! Puxa, com essa blusa na boca é mais difícil correr. Xi… voou.”

– Aí você foi longe demais! Minha blusa preferida rasgada e suja de terra… o que se passa na cabeça dessa cachorrinha? Já pro canil!

Esse pessoal é muito distraído. Olha lá: a janela do carro ficou aberta. Acho que se eu me esforçar, subo pela porta e fico lá dentro tomando conta…”

– Papai, acho que alguém arranhou a porta do seu carro inteirinha!

Pode deixar que eu vou pro canil sozinha. Nem precisa me falar mais isso, pessoal. Já aprendi. Viu, como sou uma cachorra legal? Eu amo essa família!”

03 de agosto de 2010

A Admiradora Secreta do Homem-Bala

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O circo Wurlitzer já tinha percorrido boa parte das vilas quando no final dos anos 60 chegou à Polenta do Norte. Como era de costume, antes de se instalar no terreno escolhido para aquela temporada, fazia um animado desfile conclamando a população aos espetáculos. Todos estampavam no rosto o melhor sorriso e acenam efusivamente ao mesmo tempo que jogavam jujubas pro alto. A criançada ia atrás, catando do chão e colocando na boca as balinhas de goma, mesmo que as mães reclamassem um tanto. Enchiam os bolsos e iam comê-las meladas, cheias de fiapos de pano até o fim daquele dia.

Depois a caravana ia se ajeitar, com as bençãos do padre local e o aval do prefeito que ganhava logo um punhado de convites pra distribuir aos seus chegados. Todos tinham mais de uma função ali. O mágico era também o cozinheiro. A moça da bilheteria era a malabarista. Os três palhaços eram os encarregados da manutenção da lona. E o homem-bala era o tratador dos animais. Além do número de maior sucesso da noite – quando voava em seu traje prateado, cuspido pelo enorme canhão pintado de vermelho e preto – era ele que entrava atrás dos elefantes para apanhar as enormes pelotas de cocô que soltavam no meio picadeiro. Para seu enorme constrangimento e diversão geral das famílias, aquilo era mais engraçado que qualquer palhaçada. Ele achava o cúmulo ter que ir do êxtase voador à figura corcunda que empurrava um carrinho de mão, uma pá e saía acompanhado de um enorme fedor. Fazia de tudo pra não ser reconhecido. Colocava óculos, gorro, macacão folgado e se encolhia de um jeito que mais parecia alguém com problema na coluna.

O homem-bala fazia as mocinhas e mocinhos suspirarem. Atlético, ágil, poderoso. Mas uma garota em especial tinha o coração dedicado a ele. Era Anita, filha da Mulher Barbada, que por causa disso era ignorada pela maioria. Diziam que logo iam aparecer pelos em seu rosto também. A genética da mãe falaria mais forte. Uma questão de tempo. Pois Anita era quem cuidava da rede de segurança em que Otto, o homem-bala, pousava depois de voar de um extremo ao outro do picadeiro. Antes, preparava o número da mãe que além da barba, possuía uma força incomum. Ela levantava halteres, puxava pianos, carregava dois homens de uma vez só. Depois de levar a mãe de volta ao trailer, ia checar as amarras da rede de Otto. Uma por uma. Eram mais de cinquenta. Como ele era a última atração da noite, havia tempo de sobra para que ela deixasse tudo pronto.

Otto nunca tomou conhecimento do amor de Anita porque era apaixonado pela filha do dono do circo – um carrasco que o colocou pra limpar o cocô do elefante de propósito porque não queria que sua linda herdeira se casasse com ele.

Anita passou a mandar cartas anônimas de amor a Otto. Nelas, prometia que daria sua vida pela dele caso fosse preciso. Também chegou a se oferecer para recolher as fezes dos animais em seu lugar. Isso o encucou. “Então alguém da plateia sabe…”. Ele ficou apreensivo. A moça contava que assistia a todos os espetáculos e viajaria o mundo todo atrás dele. Mas Otto nem sonhava que fosse Anita.

Mas em Polenta do Norte foi diferente. Naquela noite o homem-bala voou em sua roupa de prata mas algo deu errado. No momento em que foi cuspido pelo canhão, ele percebeu que voava um pouco fora de rota. Alguém tinha mexido na mira. O dono do circo parecia sorrir lhe dando tchauzinho lá debaixo. Nas frações de segundos em que isso acontecia ele teve certeza da morte. Fechou os olhos esperando o impacto e nem viu quando a garota franzina correu para aparar sua queda. “Anita? Como você fez isso?”, ele perguntou ainda em choque. “Acho que herdei a força de minha mãe”. Sem querer, ela o apertou no colo, como se fosse um brinquedo. O público urrava delirando com a cena extraordinária que tinham visto.

Foi aí que Otto, emocionado, viu uma pelugem rala por todo o rosto dela. E sem ter como lutar contra aquele desejo estranho, soube que Anita era a mulher barbada de sua vida.

22.03.2011

UMA ALMA AOS SETE ANOS

seteFoto: Fernanda Takai

– Você sabe como é a alma, mamãe?

– Hummm… ninguém sabe direito.

– Eu sei! É como se fosse uma fumacinha que mora dentro da gente. Quando alguém fica muito machucado, ela vaza por um buraquinho e vai embora. Quando nosso corpo fica sem alma, ele morre.

– Como você descobriu isso?

– Eu aprendi com o Penadinho na revistinha… mas alma é igual a fantasma, mamãe?

– Depende… Você acredita em fantasma?

– Fantasmas não existem.

– E o Penadinho?

– Mãe, ele é do mundo da imaginação. Você não presta atenção?