LUZ NEGRA (2009)

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Em 2007, Fernanda Takai atirou-se ao vitorioso projeto de recolocar em foco a obra e a natureza artística imprevisível de dona Nara Leão (1942-1989). Resultou numa homenagem rebelde e iconoclasta (é o modo mais inteligente de homenagear) e no CD Onde Brilhem os Olhos Seus, que por sua vez resulta agora no DVD e CD ao vivo Luz Negra (Deckdisc). Ora, mas você já sabe de tudo isso há tempos. Foquemos no imprevisível, com a bênção de mãe Leão.Por exemplo, do laser imaterial do DVD brotam imagens de apuro estético digno do currículo de Fernanda e seu Pato Fu. Sob a orientação da autora e a influência de filmes como O Homem-Elefante (1980), de David Lynch, e Sin City (2005), de Frank Miller e Robert Rodriguez, a equipe da produtora mineira G5 foi além da gravação burocrática de um show e criou um habilidoso jogo de cores e sombras, claros e escuros, naras e leões – com as bênçãos de pai Bertolt Brecht.

A parte musical é conduzida com Lulu Camargo (arranjos e teclados), Mariá Portugal (bateria e percussão), Thiago Braga (baixo e violão) e o marido e colega de banda John Ulhoa (arranjos, guitarra e violão), e aqui se produz uma série de pequenas grandes surpresas. Fernanda reverencia Nara, mas sem deixar jamais de demarcar que Fernanda é Fernanda e que Fernanda não é Nara (daí minha afirmação anterior sobre a iconoclastia, a rebeldia e a inteligência do tributo). O palco é o lugar ideal para materializar essa distinção.

E Fernanda se distingue entrelaçando Nara a outras memórias afetivas, num bordado que a homenageada jamais imaginaria, mas aprovaria com entusiasmo (ou não seria quem foi). Metabolizada pelos afetos da discípula, a força MPB de Nara se ajusta à força pop de entidades como os Eurythmics de Annie Lennox (There Must Be an Angel, 1985), Duran Duran (Ordinary World, 1993), o ídolo pré-iê-iê-iê Demetrius (O Ritmo da Chuva, 1964) e… Michael Jackson. Nosso adorado pobre menino rico nem havia morrido quando Fernanda inseriu no mundo de Nara esta doce versão de Ben (1972), tema cantado por um garoto de 14 anos e dirigido a um ratinho triste e abandonado (haveria imagem mais condizente com a de Michael no ano de sua morte?).

Ah, lembro-me de Roberto Carlos, de quem Fernanda tentou relançar O Divã (1972), regravada por Nara em 1978. Já que não pôde (por que? pergunte ao nosso “Rei”…), decidiu adicionar outra do mesmo disco de RC, a tristonha e abandonada Você Já Me Esqueceu. Nada a ver? Tudo a ver, que a “carioca” Nara, como Roberto, era capixaba.

Do ciclo de referências entrecruzadas participa ainda Kobune, versão em japonês de O Barquinho – Nara era querida no Japão, Fernanda é mestiça de japoneses, Fernanda e o Pato Fu são queridos no Japão, pois então. O novelo de afinidades se desata em Sinhá Pureza, sucesso em 1974 com a subestimada Eliana Pittman. Dona Eliana é carioca, mas Sinhá Pureza é um fulgurante carimbó paraense, que remete às raízes amazônicas de Takai (embora “mineira”, ela nasceu no Amapá) – todo dia era dia de índio!

E aqui eu agradeço a Fernanda: por causa deste show, fui reouvir sinhá Eliana Pittman e conferi que o autor de Sinhá Pureza era um paraense arretado chamado Pinduca. (Re)descobri em casa um antigo CDzinho-coletânea de sinhô Pinduca, e desde então me apaixonei perdidamente pela obra originalíssima desse desconcertante jazzista festeiro índio japonês amazônico brasileiro Michael negro Jackson Nara pureza branqueza Leão. E não sou eu só: nossa adorada música brasileira já deve mais essa a dona Fernanda Takai.

Pedro Alexandre Sanches, julho de 2008