O Movimento das Montanhas

Este meu texto foi publicado nos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense, mas aqui no site dou a chave ilustrada no fim.

Algumas vezes escrevo em minha coluna semanal, de um jeito disfarçado, sobre coisas que aconteceram há muito tempo em minha vida… uma forma de pelo menos eu sentir que o assunto circulou por aí e acabou de uma forma positiva. Claro que nem sempre é assim. Mas nesse caso foi. E muito. Divido aqui com vocês.

:  ))

O MOVIMENTO DAS MONTANHAS – 29/12/2009

Havia um pastor que fazia muito tempo era um dos mais adorados do mundo. Seus campos, plenos de ovelhas, se espalhavam para além da imaginação. O mundo inteiro reverenciava seus talentos. Ao cuidar de seu rebanho, encantava as pessoas e os animais com sua voz terna. Nem fazia muito esforço. Bastava cantar as canções que inventava e as coisas aconteciam. Água limpa brotava, a relva verdejava. A ele vinha a chuva, a ele vinha o Sol, como súditos saudando o senhor do tempo. Era difícil achar alguém que não visse naquele homem a personificação de um ser mágico. Qual o seu segredo? Como consegue cuidar de tantas ovelhas? Quem lhe deu essa voz dos anjos? Por que seus domínios ultrapassam todas as fronteiras? – alguns se perguntavam. Mas tamanho era o encanto que se satisfaziam mesmo sem respostas.

Um dia uma aprendiz de pastorinha que sempre ficava olhando tudo de longe fez um movimento incerto. Ou ele tinha feito. Não sabia bem. Como num tabuleiro de xadrez. Mas nem se deu conta disso. Alguma coisa errada tinha ocorrido. Tinha pisado numa ovelha sem querer? Montou a tenda num lugar inadequado? Por mais que ela chegasse perto, não alcançava mais o som bonito que vinha das montanhas. Algumas ovelhas ficaram ao seu redor e todas indagavam sobre aquela falta de sorte. Não sei, não sei! – ela dizia. A notícia ruim se espalhou por alguns lugares do reino e depois de algum tempo felizmente se foi junto com algum riacho que corria. Porém nada foi como antes. Isto é, as vidas seguiram, embora desencontradas.

Mais de uma década se passou e a pastorinha que estava andando com suas ovelhinhas por uma vila distante avistou um senhor correndo em sua direção com uma mensagem. É para você! Custei a alcançá-la, faz tempo que estou à sua procura. Haverá um festival de canto de pastoreio e você foi escolhida para participar. Ela ficou radiante! Obrigada, aceito sim, com muito gosto. Mas… são canções dele, você sabe…. O mensageiro retrucou: Claro que sim, as melhores canções são dele. Todo mundo sabe. Ele sabe também que você foi convidada…. Com alegria e um pouco de hesitação, ela aceitou. Durante uma semana treinou a canção escolhida, cantava em todo lugar enquanto andava com suas ovelhas. Na noite anterior à apresentação no vilarejo principal da região, ela cantava para a noite estrelada quando pensou ouvir ao longe a voz que havia muito tempo não conseguia mais escutar. Só podia ser ele. E cantavam a mesma canção. Como num dueto secreto os dois continuaram por algum tempo, até que o primeiro raio de sol riscou o escuro. Fez-se de novo o silêncio.

De manhã, enquanto todos os pastores cantores se apresentavam, ela procurou por todo canto a presença que tanto esperava. Ele não estava lá. Tinha sido um sonho com certeza. Na sua vez, cantou o mais lindo que pôde. E se deu por satisfeita por aquilo tudo ter enfim ocorrido.

Mais um ano se passou e ela foi a uma terra não muito distante ajudar uma amiga pastorinha que começava novo rebanho. Ela também gostava muito de cantar. Juntas reuniram várias pessoas para um sarau em torno da fogueira quando alguém cochichou: Você está ouvindo esta voz?. Era a voz mágica que vinha acompanhando a mesma melodia que as duas entoavam. De um jeito inesperado o pastor de todas as montanhas se chegou e abraçou as duas de um jeito muito verdadeiro e sincero.

Tudo em volta ficou mais leve e bonito. As pessoas presenciaram a música ajudar no reencontro, regando de novo com sua melodia e poesia todos os corações.

Hoje em dia, pode se ouvir em cada montanha uma voz que canta para todos, sem exceção. Enquanto isso os montes vão se movendo de forma quase imperceptível. Somente para encontrar você, onde quer que esteja.


*****


Foto: Claudia Elias

25 comentários em “O Movimento das Montanhas

  1. Nossa! Fernanda, eu lia e viajava no texto, imaginando cada vale entre as montanhas, as ovelha pastando, a pastora cantando com sua voz suave e clara… e o dono da mágica voz, só poeria ser ele!
    Vc conhece o blog da Silmara Franco? se vc tiver um tempinho, dê uma espida no link abaixo… esse texto também fala dele…
    http://fiodameada.wordpress.com/2009/09/10/o-dia-em-que-fui-ao-clube/

    Beijinho Fernanda… queria ler mais textos seu…
    Josi

  2. Oi Fernanda,
    Muito bom o texto. Antes de ver a foto, tinha captado nas entrelinhas sobre o que se tratava e me surpreendi positivamente por ter acertado (acho até que consegui captar as sutilezas sobre o desencontro e o encontro). É óbvio que Milton soube mais do que ninguém captar os sons de Minas Gerais, especialmente do interior, das montanhas. Mas a música de vocês, do Pato Fu, também soube captar como ninguém o som e o barulho contemporâneos de Belo Horizonte. Em épocas distintas, vocês foram criadores de um som que consegue traduzir um local. Acho que poucos artistas foram capazes disto. “Um Gosto de Sol” é um presente.

  3. nossa! texto perfeito! pelo que eu sei (ou não) desses encontros e despedidas durante os anos, percebi que você conseguiu encaixar cada detalhe na história… e final feliz é muito legal! um beijo para as pastorinhas (que, pra mim, são superpastoras) e pro eterno pastorzão avacanoê!

  4. Fernanda, essa história me deixava muito triste porque eu não entendia o que a “pastora” tinha feito de errado. Mas parece que as coisas se acertaram…

  5. Cada vez que eu leio um novo texto seu eu me convenço mais de que além de uma excelente cantora, compositora, ainda é uma excelente escritora! Um texto mágico esse! 😮

    PS: Eu mudei o nome do meu blog para Antes Que Seja Tarde, uma homenagem à minha música preferida do Pato Fu! 😀

  6. ^ O Rubinho é o Capeta!!!

    Fiquei muito surpreso e feliz ao ver essa foto, agora que li o texto então…
    Adoro descobrir oq está disfarçado em alguns textos seus, um dos meus preferidos é o do Paulo e seus barquinhos de papel : )

    Abraço!

  7. Cresci escutando Milton, passei a adolescência indo a shows do Pato Fu e de uns dois anos pra cá me encantei pelo trabalho maravilhoso da Érika. Nem preciso dizer que esta foto vai ficar linda num porta retrato;

    Muito bom. Li este texto no Estado de Minas e percebi que ele saiu duas terças seguidas, com pequenas modificações quase imperceptíveis e ilustrações diferentes. Gostaria de saber o porque.

  8. Fernanda,

    Linda parábola, especialmente por saber que houve um final feliz!

    Vocês são 2 grandes importantes artistas da música brasileira e não fazia sentido continuar este mal-entendido.

    Um beijo!

  9. eu vi tudo.. só não consegui falar com vc no final… é saudade de muita
    nosso ultimo encontro foi na bienal do livro de fortaleza…

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