Meu Primeiro Peixe-Boi

Filhotes resgatados em tratamento no Bosque da Ciência, Manaus, AM

Texto publicado no jornal Estado de Minas, 02/11/2010

Estou no Amazonas com minha família. Das últimas vezes em que estive aqui, foi apenas profissionalmente. Chegava no aeroporto, ia pro hotel dar entrevistas, almoço, passagem de som, hotel, banho, comida, show e aeroporto outra vez. Guardo uma foto antiga, no colo da minha mãe, em frente ao Teatro Amazonas, quando devia ter menos de 1 ano. Sempre que minha filha me perguntava, dizia que era um dos teatros mais lindos do mundo. Mas não me lembrava nadinha do seu interior, claro. Ontem, estivemos lá e agora ficou a vontade de me apresentar num lugar tão importante e belo… Deixei o contato com um dos funcionários para ser entregue à diretora artística. Feriado nem tão completamente desligada do trabalho assim.

Antes de partir para a Estação Ecológica de Anavilhanas, o maior arquipélago fluvial do mundo, situado no Rio Negro, teríamos apenas um dia em Manaus para conhecer algumas das atrações principais. Seguindo a dica do meu irmão, que esteve aqui recentemente, fomos direto ao Bosque da Ciência, mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Lá vivem cerca de 40 peixes-bois, entre adultos e filhotes – a maior parte órfã de mães brutalmente caçadas, mesmo com a proibição que vigora desde os anos 1970. O motorista do táxi que nos levou já tinha comentado sobre a situação crítica que ocorre no momento por conta de uma das piores secas na região amazônica.

O peixe-boi sofre muito, pois fica ainda mais vulnerável à caça. Quase 10 animais são abatidos por dia apenas numa das regiões da bacia, número muito grande para uma espécie ameaçada de extinção. Esse animal lento precisa vir à superfície para respirar, pois é mamífero herbívoro. Muito dócil, quase desapareceu do mapa quando a caça era indiscriminada. Além de sua carne ser muito apreciada pelas populações ribeirinhas, o óleo e o couro eram exportados para a Europa. Um dos usos do couro grosso e resistente era para as correias das máquinas de costura antigas, aquelas de nossas vovós…

Por coincidência, uma equipe de jornalismo da Rede Record nacional estava fazendo matéria especial sobre o problema da matança de peixes-bois na estação da seca. Acabei dando entrevista sobre o assunto. Fui convidada pelos funcionários do Bosque a ver de pertinho os filhotes em recuperação. Seis animaizinhos nadando em pequenos tanques reservados para esse fim. Nossa filha ficou muito interessada e logo disse: Vamos lá, mamãe?. Só criança mesmo pede, sem qualquer constrangimento: Posso passar a mão nele, moço?. Falei que não devia, pois estavam em recuperação, mas o biólogo contou que eles adoram carinho. Claro que pode, não precisa ter medo. Vem, chame eles aqui colocando a mão na água… Agitou um pouco a superfície do tanque e lá vieram os dois filhotes, abrindo e fechando as enormes narinas, com olhinhos mínimos pro seu tamanho.

A primeira sensação é de que são como cachorrinhos aquáticos. A gente se esquece da nossa familiaridade com os mamíferos… Ficamos acostumados com gatos e cães, mas todos os outros bichos que interagem com os humanos pelo instinto curioso e carinhoso são sempre encantadores.

Passamos a mão nos peixes-bois e fizemos afagos embaixo do pescoço. Que toque macio tem a pele! Completamente diferente de tudo o que já tinha sentido em alguma espécie viva. Essa espécie amazônica tem o couro bem lisinho. Eles ficaram ali, o tempo todo, olhando pra gente. Por isso são presa fácil. Quando não recebem apenas olhares de contemplação e gestos amorosos, são arpoados ou torturados com rolhas colocadas nas narinas. Assim, sufocam e morrem. Uma forma tão cruel de abate que é difícil acreditar.

Depois de nos proporcionar esse encontro incrível e de nos contar algumas histórias sobre o massacre de outras espécies, o biólogo nos revelou que há uma mamãe peixe-boi no tanque maior. Ela beira os 50 anos e já adotou diversos filhotes órfãos, que ao longo dos anos chegaram para reabilitação. Talvez seja esse tipo de exemplo que os humanos deveriam seguir em relação aos animais.

Ajuda muito a experiência de presenciar um problema que a princípio parece tão distante de nós, moradores de grandes cidades do Sudeste do Brasil. Depois de ver esses bichos de perto, de tocar alguns deles, alguma coisa mudou em meu coração. Passei a me sentir, de alguma forma, também responsável por eles.

Leitura recomendada: De Volta Pra Casa, INPA,2009. Organizadores Jone César Fernandes Silva e Vera Maria Ferreira da Silva. Adaptação do livro ÓRFÃO DAS ÁGUAS, de Wilson Nogueira. Ilustrações Adão Iturrusgarai.

16 thoughts on “Meu Primeiro Peixe-Boi

  1. ” Depois de ver esses bichos de perto, de tocar alguns deles, alguma coisa mudou em meu coração. Passei a me sentir, de alguma forma, também responsável por eles.”

    o bom de acontecer coisas assim, é que ao reproduzi-las escrevendo, tbm faz com que a gente se sinta responsável. Alguma coisa tbm muda em nossos corações quando lemos relatos como esse.
    Que bom conhecer uma cantora tão linda … ❤

  2. Não pode ser coincidência o fato de ser a primeira vez que visito o blog (mesmo sendo fã desta cantora há muito tempo) e dar de cara com um post tão bonito, logo agora que estou trabalhando como veterinária do Projeto Peixe-Boi, na Ilha de Itamaracá-PE. Apesar de estar com eles há apenas um mês, já estou completamente apaixonada pelas criaturinhas e comprometida com a causa.
    Agora é mais que uma obrigação deixar o convite para que visite-nos quando tiver a chance e conheça o nosso trabalho, muito semelhante ao do INPA, porém com peixes-bois marinhos, espécie um pouco diferente mas igualmente ameaçada.

    Grande abraço.

  3. Mais uma vez a sua preocupaçao nao so com o ser humano mas com os animais tambem me deixa muito feliz e cada vez mais fa da sua pessoa!!! Sinto falta de quando voce levava Nina e eu falava:Oi, amiga cantora!!! E agora faz tempo que nao te vejo mas o seu sucesso e motivo de alegria para mim!!! Fico no aguardo de um dia poder ir num show seu!!Keep on being such a good person!! And don’t forget that there is always someone cheering for you!!!Kisses
    Andrea

    1. oi andrea,
      john tem levado mais nina à escola porque estou abduzida por um monte de entrevistas de todo tipo por conta da turnê… obrigada por acompanhar tudo por aqui.
      : D

  4. São tantos pontos positivos a destacar sobre essa menina/mulher Fernanda Takai, que eu poderia alongar demais meu comentário. Desta forma, gostaria de citar apenas a luta destemida contra a caça ao peixe-boi,pela qual tb abraço essa causa tudo em defesa contra as monstruosidades feitas a animais inofensivos q me faz cada vez mais apaixonada por eles. Sem procurar aplausos nem interesses mesquinhos, lutando por aqueles que não tem voz nem a oportunidade de se defender, FERNANDA TAKAI dá um belíssimo exemplo de como o VERDADEIRO ser humano deve se comportar diante de uma situação tão triste…é isso ai!Q sirva de lição

  5. Experiência maravilhosa!!!!
    Espero tb ter esta oportunidade um dia.
    Parabéns, mais uma vez, por demonstrar ser uma pessoa maravilhosa.
    Por favor, se souberes quando vai ao ar a matéria da Record, divulga, para que possamos todos ver esta beleza.
    Obrigada.

  6. Olá, sou aqui de Manaus, que bom que vc conheceu nossa cidade, achei lindo o seu depoimento sobre a visita aos peixes-bois no INPA, o contato com esses animais nos deixa realmente diferentes, ao contrario do que parecem, são extremamente doceis e indefesos, obrigado por divulgar um pedacinho do que a cidade de Manaus tem a oferecer, e por ajudar a divulgar o belissimo trabalho do INPA, uma dica: volte no paríodo que vai de abril a Junho, época de cheia do Rio Amazonas, é estonteante a paisagem, o encontro das águas é de tirar o folêgo. Mas se tb for pra vc voltar pra fazer um show no teatro amazonas, melhor ainda, sempre imaginei uma apresentação sua lá, seria perfeito, mas e agora com o musica de brinquedo ser perfeito pra teatros, quem sabe o pato fu tb não vem a Manaus, afinal desde 2002 não ouvimos vc cantar por aqui. beijos e obrigado pela visita

  7. Olá Fernanda, acompanho seu trabalho desde que tive conhecimento do Pato Fu (sou jovem, 16 anos apenas) e te admiro muito, não só como cantora mas agora como um estupendo ser humano, e esse sentimento de orgulho de um ídolo meu tão forte vêm desde que acompanho seu blog.
    Ao ver também que você responde a maioria dos comentários aqui no blog me incentivei a deixar uma lembrança, já que elogiar é sempre bom!
    Abraços
    Seu superfã adolescente

  8. Oi Fernanda, assim como o Rafael Magnari tbm sou de Manaus, concordo com ele qndo afirma que um show do Pato Fu- Música de Brinquedo seria maravilhoso no nosso Teatro Amazonas que é um pouco seu tbm.
    Um abraço!

    P.S:Sou Pato Fu desde pequeninhinha,rsrsr.Minha mãe tbm adora o som de vcs, ela sempre diz: Que bolero q nada eu gosto é de Pato Fu!

  9. Sou do Amazonas, normalmente os artistas falam bem daqui (apenas quando lhe são perguntado), mas não expõem seus sentimentos, obrigado Fernanda pelos dizeres.. seja sempre bem vinda ao Amazonas/Manaus. 😉

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