Achei!

Quem leu meu livro “Nunca Subestime Uma Mulherzinha”ou é leitor dos jornais onde tenho minha coluna às terças-feiras, deve se lembrar de um texto chamado “Procura-se Uma Professora de Violão”.

Não é que depois de muitos e muitos anos a gente conseguiu se reencontrar?

Uma sobrinha dela, me passou o endereço em Juiz de Fora. Escrevi uma carta à moda antiga. Recebi outra de volta com aquela mesma letra que eu sabia reconhecer direitinho. Junto vieram desenhos de seus dois filhos. Como não poderia deixar de ser, duas pessoas tão educadas e encantadoras como ela mesma.

Fiquei na torcida pra que um show fosse marcado na cidade. Estive lá com o Pato Fu, mas o telefone que eu tinha dela na época da carta mudara. O Conservatório onde ela dá aulas atualmente estava fechado… Quase um ano se passou e voltamos à cidade com o “Música de Brinquedo”. Mandei um telegrama dias antes, mas ele voltou. Estava muito chateada pois não estava conseguindo mais contato. Enquanto passava o som, o produtor local me disse que uma ex-profesora minha tinha ligado lá e queria pra falar comigo mais tarde. Nem é preciso dizer o quanto fiquei apreensiva para que a noite chegasse logo.

Finalmente a vi ali junto com seus dois filhos. Uma alegria imensa. Durante o espetáculo falei que ela estava na plateia e de sua importância em minha vida.

Segue a nossa foto no camarim. Quando ela me dava aulas, tinha 19 anos e eu 9!

Gosto quando o tempo é bom com a gente e nos dá esse tipo de presente.

:  )

Foto: Ana Luiza Chapman

Abaixo segue o texto para quem não conhecia…

PROCURA-SE UMA PROFESSORA DE VIOLÃO – publicado em 05/102006 nos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense

Quando eu tinha uns nove anos, comecei a ter aulas de violão com uma professora que morava perto da minha casa. Acabei ganhando de presente de aniversário adiantado um violão de cordas de nylon que era enorme pro meu tamanho. Mas a culpa foi minha mesmo. No dia em que fui na loja com meu pai, quis um instrumento que ficasse comigo por muito tempo. Aliás, é um dos dilemas dos principiantes: compramos algo baratinho e não tão bom pra depois passar pra um instrumento melhor ou já escolhemos algo com mais qualidade porque aí até mesmo nosso aprendizado vai ser facilitado? Violões que não afinam direito dão uma tristeza danada… E os dedinhos machucados de quem começa a aprender bem que precisam de um braço macio e cordas equilibradas. O problema é que a verba da familia acaba decidindo por nós. Assim, num sábado pela manhã, voltei feliz do centro da cidade com meu primeiro instrumento musical de verdade.

Então lá ia eu, uma vez por semana, levando meu violão numa capa de tergal marrom. Abraçava-o com força porque se o levasse pela alça da capinha, se arrastaria pelo chão. Minha mãe indicou o caminho mais curto pra chegar até a casa da professora. Eu fazia sempre o mesmo trajeto. Atravessava as ruas no mesmo lugar. Abria o portãozinho de ferro que dava num quarto externo daquela casa de esquina feita de tijolinhos e, antes de entrar, espiava pela janela. Muitas vezes a professora estava ainda terminando a aula anterior e passando aos alunos as músicas que tinham que ser treinadas pra próxima semana. Era uma turma pequena. Dois, três no máximo! Alguns dias tive aulas sozinha, era um horário bem no meio da tarde. Como eu me sentia contente ali! Era recebida com o enorme sorriso da professora – ela mesma muito jovem. Isso nos ajudava a ter um repertório sempre atualizado de músicas que estavam tocando no rádio e que ela já tinha cifrado pra todos aprenderem, junto com algumas novas posições. Claro que era preciso passar por alguns clássicos, digo, canções populares. Elas continham os acordes básicos e pilares de todo o resto. Então o começo de todos os caderninhos dos alunos era bem parecido… na medida em que íamos aprendendo mais acordes, ia se abrindo o leque de escolhas. Devo ter frequentado regularmente as aulinhas de violão por quase três anos.

Minha professora insistia para que eu também cantasse as músicas que eu ia aprendendo a tocar. “Tenho vergonha”, eu dizia. “Não consigo, minha voz não é boa”. Ela insistia: “É boa sim, vamos, canta comigo baixinho então.” Ela cantava muito bem. Tinha uma afinação incrível e sabia criar outras vozes. “Como os Beatles, né?”, eu me admirava. Eu preferia vê-la cantar enquanto ia tocando meu violão pra que ela avaliasse se eu tinha aprendido ou não cada uma das canções. “Esse dedinho aí ainda tá fraco. Treina mais um pouquinho,viu? Ou dá mais comida pra ele!” Sempre muito simpática, fazia com que a gente se esforçasse mais e conseguisse ir em frente nas páginas do caderno. Quando comecei a ser fã de determinados artistas, ela com paciência me ajudava a tirar algumas cifras das minhas músicas preferidas. E sempre insistindo: “Fernanda, você tem que cantar mais”. E eu não me lembro de ter feito isso com convicção na frente dela. Engraçado.

De tempos em tempos quando vou votar numa escola em Belo Horizonte, passo em frente à casa onde ficava o quartinho de aula de violão. Não transferi meu título de eleitor, o que me leva a reencontrar algumas ruas do bairro onde morei no passado. Há alguns anos toquei a campainha pra saber se ela estava por lá, ninguém atendeu. Eu me encontrei com ela pela última vez há mais de dez anos e perdi o contato. Nunca disse para a Lercy Cyrino o quanto ela foi importante pra mim. E acredito que muita gente tenha ainda a música muito presente em suas vidas – profissionalmente ou não – por causa dela.

Querida professora de violão, obrigada por fazer de mim uma pessoa melhor através da música que você me ensinou. Se essas linhas chegarem até você, espero que eu possa lhe dar um abraço apertado qualquer dia desses…

25 comentários em “Achei!

  1. Que bacana Fernada…
    Eu li seu livro, aliás muito cativante esta histórias e várias outras tb.
    Que bom que tiveste a oportunidade de reencontrá-la e certamente agradecer por ela ter insistido que vc cantasse, pois do contrario não teríamos hoje uma das vozes mais lindas do Brasil!!!!

  2. Oi, Fernanda!
    Nem sabia que você tinha um blog. Descobri por acaso e comecei a acompanhar recentemente. Adorei essa história de gratidão e reencontro. Tão bom reencontrar pessoas que foram importantes pra nós!
    E vou ler “Nunca subestime uma mulherzinha” assim que minha pilha de livros para ler diminuir. 😉

  3. Sou beatriz filha da josi tenho 11 anos e já tentei com 2 professores a primeira se esqueceu que me dava aula ,quando eu pergutava para ela sobre a aula de teclado ela respondia “o que?” ou
    “que aula de teclado?”.
    O segundo professor era seminarista desistiu do seminário e foi pra Santa Catarina sem nem avisar.
    E sem eles aprendi mai do que com eles para ser esata aprendi 7 musicas sem eles.

  4. Quem procura aaaacchhaa!!! Que bom voce achou sua professora.. Fiquei triste que voce nao me aceitou como amiga no facebook, mas tudo bem!!!
    Beijos e bom retorno ao CSM
    Andrea

    1. eu não uso facebook. existe um perfil meu que é administrado pela produção e isso é informado lá. a melhor forma de contato comigo, além da vida real, são os sites oficiais. cuidamos pessoalmente deles. também não estou no orkut, mas há algumas fernandas takais por lá…

  5. Fernanda!
    Leio o seu blog há algum tempo, mas o post de hoje é por demais bonito! Faz duas semanas, comecei a fazer aulas de bateria e a minha professora também é maravilhosa!
    Infelizmente, eu me mudo daqui a dois meses e terei que parar com as aulas, mas o quê ela tem me ensinado seguro que levarei para sempre comigo.
    Parabéns pelo blog e pelo encontro!
    Abraço, Raul.

  6. Eu tinha uma professora no primário que no meio do ano letivo teve que ser substituída por outra. Esta outra se chamava Taís. No final do ano na entrega dos diplomas a professora “oficial” apareceu, falaram o nome dela no microfone em sua homenagem e todos aplaudiram de pé, e a Taís estava lá, no seu cantinho, nem foi homenagiada. Eu como uma criança besta começei a chorar com dó da Taís, tive o sentimento de que ela foi desprezada. Gostaria de um dia encontrá-la.

    Que bom que encontrou sua professora de violão!!!

  7. Fiquei feliz com a notícia! Lembro desse texto sim. Tenho seu livro, é uma jóia rara. Tenho 16 anos, e pessoas como você são meus grandes exemplos, e estímulo para continuar na busca do conhecimento e valorizar a cultura do país. Além de ser uma genial escritora, tem uma das vozes mais lindas da música. Obrigada por tudo, Fernanda.
    Beijos!

  8. Oi Fernanda!
    Que texto mais lindo sô!
    Fiquei comovida!
    Muito legal essa história de procurar pessoas, é bom achar pessoas que a gente ama.
    Gosto disso, a gente precisa disso, a gente precisa se encontrar e encontrar o outro sempre.
    Beijos procê.

  9. Que máximo, Fernanda.
    Eu aprendi a tocar saxofone bem novinha também, com um senhor chamado Gastão da minha pequena cidade.
    Mas sempre que vou visitar meus pais, aos sábados a noite dou um pulinho no coreto da praça e vejo, a mesma banda que um dia eu toquei, continuar tocando até hoje. E lá está de pé o Sr. Gastão, regendo-a com as dificuldades que a idade traz.

    Grande beijo e até mais.

  10. Que legal, eu li, ou melhor eu tenho o livro, e fiquei curiosa pra saber no que ia dar essa história. Que bom que vc conseguiu reencontrá-la.

    Sua GRANDE fã,

    Fabíola

  11. Fantástico saber que você conseguiu achar a professora de Violão. Comprei seu livro no dia do Pocket Show na Cultura do Conjunto Nacional/SP (ViraCultura) e voltei para casa o lendo. Eu não consegui desgrudar do livro e o devorei em umas duas horas (tenho hábito de leitura). Simplesmente fantástico e realmente nos faz justificar o nome. 😛

  12. Oi, Fernanda! Vi o show do Pato Fu sexta-feira em Rio Preto. Pra mim foi uma realização poder ter assistido, pq já tinha ouvido e amado o “Música de Brinquedo” e quando fiquei sabendo do show, ainda estava fazendo meus últimos ciclos de quimioterapia e, inicialmente, tive medo de não poder ir. Mas, felizmente, terminei o tratamento duas semanas antes do show e pude ir constatar várias coisas que eu já sabia:
    1. O Pato Fu é uma das melhores, senão a melhor, banda brasileira atual;
    2. Fato: vc parece ficar mais bela e mais jovem a cada ano que passa;
    3. Eu tbm tenho aquele macaquinho que bate os dois pratinhos de metal! (essa eu não sabia!).
    Na saída do show, comprei seu livro. Depois eu e meus amigos tentamos voltar à quadra para tirar uma fotos com vcs, mas ninguém deixou. Quando cheguei em casa, tomei um belo banho (que calor estava, não?), escovei os dentes, liguei o abajur ao lado da minha cama e comecei a ler seu livro. Fiquei lendo até altas horas. Posso dizer que tive uma grata surpresa: vc escreve deliciosamente sobre sua vida, seu passado, seu cotidiano. Você transparece nos seus textos a pessoa delicada, culta e gentil que é. O mundo precisa mesmo disso: gentileza. Passei a te admirar ainda mais!

    Parabéns, um grande abraço e muitos anos de sucesso a você e ao pessoal do Pato Fu!
    Flávia.

    1. ah… quantas palavras boas. ficamos um tempão autografando e tirando fotos lá em rio preto. da próxima vez pode insistir que a gente faz questão de receber todo mundo.
      : ))

  13. Oi Fernanda,
    chequei aqui por acaso e me emocionei com seu relato sobre a professora.
    Que coisa mais linda, vc se lembrar dela e ainda tentar encontra-la. A gente que só é estrela dentro de casa, rsrsrsrs, pro marido e filho, é claro, nem imagina que vc sendo uma estrela do Brasil e do mundo, se lembraria de sua professora de música, é que a gente esquece que vc tb teve um passado no anonimato como qualquer pessoa, e foi criança, foi aprendiz, foi aluna, né?
    É muito legal quando a gente percebe que a vida acontece com todo mundo messssmo, até com nossos ídolos.
    Beijos
    Lola BH

  14. Que emocionante… : )
    A sorte é toda nossa por essa sua professora de violão.

    Meu sonho é tocar violão, comprei um a 4 anos atrás. Tentei sozinha no começo, mas não deu muito certo.
    Me prometo todo ano a fazer aulas, mas outras prioridades da vida sempre deixam ele pra depois.
    Qualquer hora vai… e começo a tocar tuas músicas 😀

  15. Que linda história, imaginei você aos nove anos com essa rotina, me deu vontade de assistir a cena de verdade. Com certeza essa professora está muito orgulhosa do trabalho que fez e parabéns a você pela iniciativa de procura lá. Suas atitudes generosas e essa “mania” de ser atenciosa e paciente com fans e com as pessoas que te admiram me faz repensar em algumas atitudes que tenho no dia dia e concluo que preciso melhorar. Parabéns pela pessoa que é, pessoas como você merecem a felicidade plena.

  16. Que legal! Estava falando com meu esposo sobre essa grande mulher a poucos dias. Saudades e vontade de revê-la. Grande Lenir. Me fez apaixonar pelo violão 2 anos após a morte do meu pai que tb era professor de violão clássico, professor Walter de Carvalho Alves. Lembro da primeira aula e dá primeira música tocada. Tinha 7 anos e o Conservatório em BH era próximo a Praça da Estação, hoje fechado. Lembranças que me arrancam lágrimas dos olhos. “Bambalalão” foi a primeira música que aprendi a tocar com ela. Grande frustração prá mim quando ela deixou o Conservatório. Depois desse dia as aulas nunca foram iguais prá mim. VC é especial e única! Grande Lenir!

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