O PÃO

paoFoto: Fernanda Takai

A mulherada não dava sossego pro homem mais lindo da vizinhança. Era uma solicitude exagerada. Ele passava e só faltava fazer a feira de tanta oferta de bolinhos, frutas, pedaços de queijo que vinham das fazendas, convites pra almoços e jantares, peças de tricô que ganhava (ele já tinha uns dez cachecóis e meias de tudo quanto é cor), recebia livros, discos… Como vivia sozinho, aceitava tudo de bom grado e isso amplificava sua simpatia. Estava longe da sua família que migrara há algum tempo pra Rondônia pra tomar conta de umas terras. Preferiu ficar na casinha que os pais lhe doaram em vida e permanecer no sudeste.

Não se sabe de onde vinha tanta beleza. Nem o pai ou mãe tinham aquela estampa. A irmã e os dois irmãos mais velhos também não. Se fosse num conto de fadas, diriam que um dos seres encantados tinha espirrado sem querer todo o conteúdo de pó mágico no berço dele. Olhava-se no espelho e nem se achava tudo aquilo, mas… o que fazer se viam algo de tão especial ali, né? Só podia achar bom.

Ninguém o chamava mais pelo nome próprio, era simplesmente “o Pão”. Até os amigos do trabalho só se referiam a ele assim. “Ô, Pão! O chefe tá querendo falar com você…” A moça do cafezinho dizia: “Seu Pão, daqui a pouco vou passar um café novinho.” As senhorinhas no ônibus comentavam: “Pãozinho querido, se algum dia estiver pensando em se casar, tenho uma netinha que faria um par ótimo com você…” . O Pão sorria e seguia sozinho. Assuntos do coração ainda não tinham acontecido com aquela convicção toda.

E foi na fila da padaria que ele conheceu uma garota por quem seu coração de pão se desmilinguiu. Ela estava escolhendo um bolo pro aniversário da mãe. Cheia de dúvidas perguntava ao balconista os detalhes de cada uma deles. “Esse aqui é de morango com recheio de quê?”. “O de chocolate é meio-amargo ou daqueles bem doces?”. “Tem de nozes? Que dia foi feito?” Não parava mais. O Pão achou engraçado aquela moça toda explicadinha e tentou ajudar na decisão. “Eu prefiro sempre de chocolate!”. Ela não achou graça. “Pega um de chocolate pra ele, o meu ainda não escolhi…” O Pão ficou sem jeito e pediu desculpas pela intromissão. Finalmente a moça apontou pra um dos bolos decorados: “Por favor, pode ir embrulhando esse que já vou lá no caixa pagar”.

O Pão pegou uns pãezinhos de sal, um bolo pequeno, um litro de leite e uma bandeja de queijo fatiado. Correu pro caixa e ficou ali pertinho da mocinha. Observou cada detalhe. Arriscou:

– Você mora por aqui? Nunca te vi antes. Eu sou o Pão… quer dizer, as pessoas me chamam desse jeito. Meu nome mesmo é…

– Eu sei quem é você.

– Você não vai levar um pão também? Tá quentinho, acabou de sair, olha!

– Engraçadinho… Não gosto de pão tanto assim.

– Assim como?

– Fresco. Prefiro pão dormido, murcho.

– Posso te procurar daqui uns trinta anos então?

Naquele instante, a garota mirou seriamente o rosto dele e pra sorte dos dois, nem o achou bonito demais.

Publicado no jornal Estado de Minas em 01.06.2010

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