CORUJICES

fotoFoto: Fernanda Takai

Venho recebendo visitas de corujas em minha casa. O primeiro encontro de terceiro grau aconteceu quando uma corujinha entrou em nossa sala de estar. Ao tentar sair, trombou com o vidro da varanda que dá pro jardim e desmaiou no tapete. Envolvemos o bichinho com uma toalha de rosto e a levamos pra fora. Ainda meio zonza, aprumou-se e bateu as asas voltando a voar pelo terreno.

Outra noite uma delas entrou pelo vão do telhado e pregou um baita susto em minha mãe quando ela veio cuidar de nossa filha enquanto íamos jantar com amigos. Ela nos ligou dizendo que havia um bicho enorme na sala. Quando chegamos, ainda a fotografamos quietinha numa das torres de CDs. Abrimos a porta e ela foi embora.

Toda vez que entra algum animal por essa fresta enorme, eu me lembro que precisamos diminuí-la. Já vieram passarinhos, morcegos, mas dessa vez as corujas tem sido constantes.

Durante um almoço de domingo com a família, uma coruja ficou pousada no cantinho do telhado, olhando fixamente para dentro da cozinha, pela janela lateral que fica em frente à pia. Foram duas horas de coruja paradinha, onde só os olhos se mexiam vez por outra e quase imperceptíveis. Desta vez filmei a dita cuja. Dei vários zooms, e até conversei com ela. É um animal bonito. Calmo e equilibrado. Comparei a foto com a gravação em fita. Seria a mesma coruja?

Duas semanas atrás um amigo hospedou-se em casa e disse ter tido dificuldades em dormir dessa vez. Mas aqui é sempre tão quieto… – eu disse. “É, mas parece que tem um ninho de coruja no seu telhado. E tá cheio de corujinhas. Fizeram barulhinhos a noite inteira. Precisei usar tampões nos ouvidos. E eu vi a mãe entrando e saindo do telhado algumas vezes pelo vidro da janela”.

O ápice da temporada de visita das corujas aconteceu na sexta passada. Havia uma corujinha bebê caída na jardineira da janela da cozinha. Não entendo nada de corujas, mas era uma ave pequenina com pluminhas muito novas e perninhas mínimas de tão finas. Primeiro a observamos com a tela fechada. Fomos abrindo devagar até que deixamos toda a janela aberta. E ela continuou ali, olhando pra gente. Meio bêbada da nova idade. Cambaleante. A gente se movia para um lado e ela ia pro outro devagar. Mais fotos e gravações com a câmera digital, claro. Parecia tão frágil que ficamos com medo de pegá-la. Mais uma vez buscamos uma toalha de rosto e envolvemos o bebezinho, colocando-o num local seguro.

Tentei ligar pra Sociedade Protetora dos Animais. Só dava ocupado. Liguei então pra Fundação Zôo Botânica que fica perto de casa. Tinha a opção discagem para “Recolhimento de Animais Mortos”. E vivos? Favor ligar para o Ibama – anunciou a voz gravada. Só que o telefone informado não existe, segundo a operadora telefônica. Telefonei para o 102 e pedi outro número do Ibama. Dessa vez funcionou. Uma funcionária de lá me pediu para que eu telefonasse para a Polícia Florestal. Eles recolheriam o animal e o levariam até o Ibama para cuidados. Depois seria libertado num habitat adequado. Não é que a Polícia veio rápido e atenderam muito bem a corujinha? Pareciam ser pessoas que realmente gostam dos animais e sabem lidar com eles. Que bom! Aquela corujinha deve sobreviver e depois virá me visitar, tenho certeza.

Enquanto esperava o resgate da coruja, procurei na internet sites sobre corujas perdidas. Queria saber o que fazer nesse tipo de emergência. Na busca geral que dei, a primeira página que apareceu foi um texto da Monja Coen. Uma admirável mulher que coincidentemente realizou o culto budista na época da morte do meu pai. Em 1997, ela era monja de um grande templo no bairro da Liberdade, em São Paulo. Nessa página ela descrevia um encontro com uma coruja durante uma meditação para iniciantes. E disse que a coruja representa a grande sabedoria. Como eu fiquei feliz! A gente sempre tem na cabeça a idéia de que as corujas são mestras. Através de desenhos, fábulas e filmes esse conceito vai ficando em nossa mente. Mas como é bom saber que alguém que possui pensamentos tão elevados sobre a vida também afere esse mesmo valor a um animal. Corujas vem me trazer sabedoria e bons sinais para o futuro. Assim espero. Pelo menos todas essas corujices já me enchem de pensamentos positivos. Domo arigatô!

Texto publicado no jornal Estado de Minas em 30.09.2005

13 thoughts on “CORUJICES

  1. Viva o representante animal dos professores e professoras! Tenho várias corujas aqui, presentes de familiares, amigos e alunos carinhosos! Além disso são ótimas para espantar pombas, que é um bichano que eu detesto.

    Em 2010 estive num bate-papo com você na Feira do Livro de Poços de Caldas e, ao responder sobre o processo de composição de “Canção pra você viver mais”, você se emocionou bastante. Agora, ligando os pontos, imagino que a presença da Monja Coen no evento tenha trazido algumas lembranças emotivas :]

    Beijo

  2. Lindo texto Fernanda!! Amo todos os animais de modo geral, até por que, fazem parte da minha profissão! Mas as corujas são especiais!!! Parabéns!

  3. Eu sou suspeita para falar do que você escreve! Sou sua fã há muito tempo… Só aparecem espécimes exóticos na sua casa??? 😀

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