FOI ASSIM COM VOCÊ TAMBÉM?

É comum a gente ouvir pais e mães dizerem que trocariam de lugar com os filhos quando eles estão passando por uma situação difícil. E se fosse necessário, dariam a própria vida por eles.

Sempre que está com medo de fazer alguma coisa pela primeira vez, a minha filha me pergunta, se quando eu era pequenininha, foi assim também. Na maior parte das situações do dia a dia, posso responder sem pensar: claro, eu também já fiz isso! Experimentar uma comida nova, mudar de escola, dormir sozinha na casa de uma coleguinha, cuidar de um novo animal de estimação, ajudar com a louça na cozinha, fazer a primeira prova… Mas semana passada engoli seco quando ela estava toda pronta pra entrar num bloco cirúrgico para reparar uma fratura no braço.

Cheguei perto dela, já toda vestida de verde, touquinha na cabeça e ouvi o seu coração batendo mais rápido que o de um beija-flor. A testa franzida em preocupação, os olhos cheios de lágrimas que vez por outra derramavam uma longa gota. “Mamãe, quando você quebrou o braço, você teve que fazer isso?”. Antes de responder, me veio um filminho na cabeça. Nunca quebrei nada. Nenhuma parte do corpo. A única cirurgia que fiz foi uma cesariana. E essa pra mim não conta porque foi por um motivo de alegria, não de acidente. No máximo, quase estraçalhei meu dedo médio na porta do estúdio, quando tive que dar alguns pontos e retirar a unha quase toda. Lembrei-me das extrações de siso… “Mamãe, você fez isso também!???”, ela estava aflita, querendo cumplicidade.

Expliquei que algumas pessoas quebram o braço, perna ou outras partes do corpo em fases diferentes da vida. Às vezes ainda criancinha, outras já velhinhos. E muitas, mas muitas vezes mesmo, quando já são adultos. Então se eu quebrar o meu braço algum dia, ela vai poder me ajudar me dizendo que tudo vai dar certo. Ela me olhou desconfiada porque não foi a resposta padrão. Suspirou fundo e disse: “você pode ficar comigo lá dentro?”. Segurei as minhas lágrimas e uma fria mãozinha esquerda apertou forte a minha. “Posso”.

Fiquei com ela até que apagasse sob os efeitos da anestesia e logo saí da sala. Deu tudo certo. Quando ela voltou a si, já na sala de recuperação, eu estava de novo ao seu lado. Ainda grogue ela me perguntou: “eu dormi?”. Dormiu sim, fez a cirurgia e nem chorou! Foi nota dez! Ela viu o soro sendo aplicado na mão do braço que estava bom e se assustou. “O outro também tá machucado, mamãe?”. Não, é só um remedinho que está entrando no seu corpo, depois eles tiram – tranquilizei-a.

Nos dois dias que se seguiram ela reclamou um tanto de dor. Parecia sensível demais a qualquer ideia de aproximação do braço. Ficava com um semblante tenso. Choramingava sempre. Era de partir o coração. E a nossa menina de sete anos está justamente no seu momento mais metafísico, pensando e perguntando sempre sobre idade, vida, morte. Mas é incrível a capacidade de algumas pessoas mudarem o foco de um dia pro outro. Com ajuda de gente sensível, claro.

Estive na escola, onde a professora mandou um bilhetinho carinhoso com todas as lições que ela tinha perdido, uma amiguinha veio visitá-la, amigos grandes também e os avós vieram trazendo um bocado de revistinhas que ela adora. Voltou a dormir em sua cama, pois até então só queria ficar num sofá que deixava o braço mais confortável. Toma o remédio pra dor só à noite. E está sorrindo! Perguntei o que tinha feito ela se animar tanto. “Mamãe, eu estou muito satisfeita. Sabe por quê? As pessoas gostam mesmo de mim, não é só você. Todo mundo quer que eu fique boa!”.

Abracei com jeitinho a menina de asa quebrada e falei que ela é a garota mais corajosa, bacana e bonitinha que eu já conheci na vida. Depois de vê-la mudar de atitude e humor com tanta convicção, não me permitirei mais desanimar diante da dor. E quando for a minha própria, espero que ela esteja por perto pra apertar a minha mão ao lhe perguntar: “Filha, foi assim com você também?”.

Texto publicado em 05. 04. 2011 no Jornal Estado de Minas

IMG_0514Foto: Fernanda Takai

9 comentários em “FOI ASSIM COM VOCÊ TAMBÉM?

  1. Como esperar algo da Fernanda que não seja doce, gentil, suave, sutil? Fernanda, vida longa, próspera, feliz com saúde e graça para você e todos que vc ama.

  2. Como é bom ter um filho(a) e junto com ele(a), descobrir os sabores da vida. Linda menininha, vai ser uma mulher forte, me fez ver a minha filha.

  3. Que lindo texto!
    Espero poder ter a suavidade com que você trata as situações com sua Nina para tratar as minhas com a pequena Lis.
    Um beijo

  4. Adorei os textos, embora só esteja comentando neste. E por falar neste texto… que lindo. Eu tenho duas crianças, o Heitor de 8 meses e a Isis de 2 anos e dois meses. E ela já me surpreende tanto. E sua filhota, que menina mais incrível também. Aquele texto que você escreveu sobre a alma, no qual ela fala sobre o Penadinho… que graça! Mas e a autora? Bom a autora eu vi acho que em 1997, no Hollywood Rock. Fui para ver o The Cure. O Pato Fu estava começando a fazer sucesso mesmo. Lembro que durante o show de vocês alguém distribuiu o sorvete Sem parar e ficavam jogando uns nos outros. Sorvete com Pato Fu. 😉

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