A FILA E OS NÚMEROS

Seu Osvaldo voltava pra casa depois de levar a netinha à escola quando viu uma fila enorme dobrando a esquina. Era começo de tarde de um dia abafado e ele a toda hora tirava o lenço do bolso pra enxugar a testa. Parou e ficou olhando aquele monte de gente na calçada. Seguiu aquele movimento com a vista curta até onde pôde alcançar. Viu um vizinho seu e resolveu perguntar:

– É fila de emprego?

– Não. É pra loteria acumulada! Você não viu o tamanho do prêmio que tão pagando?

– Nem reparei… bem, deixa eu ir.

– Não vai fazer uma fezinha?

– Rapaz, olha o tamanho dessa fila… se eu ficar aqui deixo de fazer o resto das coisas que tenho que fazer hoje.

– Mas é por uma boa causa, seu Osvaldo! Imagina o senhor, que nem tava esperando nada, parou aqui por acaso… vai que ganha?

– Esse pessoal todo num tem mais nada pra fazer não?

– Alguns tem, outros justamente por não terem nada é que estão aqui.

– Vamos lá, seu Osvaldo! Ainda dizem que essa lotérica é pé quente! Um dos maiores prêmios da história saiu aqui, nos anos 70.

– Vixe, mas isso foi há mais de trinta anos…

– Pois então, tá na hora de sair mais um!

Seu Osvaldo coçou a cabeça e pensou na lista de compras que tinha no bolso, no carro do filho que precisava levar pra revisão, na mulher que estava esperando ele pra arrumar um canteiro do jardim…

– Tá bem. Afinal, a sorte pode vir quando a gente menos espera, né?

Entrou na fila. Atrás dele,cada vez mais gente. A serpente de pessoas foi se tornando imensa. Todos foram deixando de lado os afazeres, atraídos pela oportunidade. Qualquer um que passasse, logo encontrava motivo pra se juntar àquela multidão organizada.

Muita gente se atrasou pra volta ao trabalho, pra reuniões, pra dar comida pro cachorro, pra buscar o pão quente na padaria, pra colocar encomendas no correio, pra buscar alguém, pra desentupir pias, pra dar e ter aulas, pra dar beijos na pessoa amada.

Seu Osvaldo depois de horas conseguiu voltar pra casa. Achou um bilhete de sua mulher:

Querido, nossa vizinha ligou dizendo que a loteria tá acumulada e a gente não podia deixar de jogar também. Vou pra lá”.

Ele tirou do bolso o bilhete de loteria com os números de aniversário dele, da mulher, dos filhos, data de casamento e nascimento da primeira netinha e viu que não ia dar mais tempo de fazer outra coisa se não voltar à porta da escola e avisar a mulher que estava na fila. Ao avistar aquela senhora por quem era apaixonado há quarenta anos gritou:

– Suzana, olha! Já tá aqui o nosso bilhete premiado!

Publicado no jornal Estado de Minas em 02.10.2008

Nota da mamãe: aniversário da Nina

NinaFoto: Fernanda Takai

3 comentários em “A FILA E OS NÚMEROS

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