A Admiradora Secreta do Homem-Bala

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O circo Wurlitzer já tinha percorrido boa parte das vilas quando no final dos anos 60 chegou à Polenta do Norte. Como era de costume, antes de se instalar no terreno escolhido para aquela temporada, fazia um animado desfile conclamando a população aos espetáculos. Todos estampavam no rosto o melhor sorriso e acenam efusivamente ao mesmo tempo que jogavam jujubas pro alto. A criançada ia atrás, catando do chão e colocando na boca as balinhas de goma, mesmo que as mães reclamassem um tanto. Enchiam os bolsos e iam comê-las meladas, cheias de fiapos de pano até o fim daquele dia.

Depois a caravana ia se ajeitar, com as bençãos do padre local e o aval do prefeito que ganhava logo um punhado de convites pra distribuir aos seus chegados. Todos tinham mais de uma função ali. O mágico era também o cozinheiro. A moça da bilheteria era a malabarista. Os três palhaços eram os encarregados da manutenção da lona. E o homem-bala era o tratador dos animais. Além do número de maior sucesso da noite – quando voava em seu traje prateado, cuspido pelo enorme canhão pintado de vermelho e preto – era ele que entrava atrás dos elefantes para apanhar as enormes pelotas de cocô que soltavam no meio picadeiro. Para seu enorme constrangimento e diversão geral das famílias, aquilo era mais engraçado que qualquer palhaçada. Ele achava o cúmulo ter que ir do êxtase voador à figura corcunda que empurrava um carrinho de mão, uma pá e saía acompanhado de um enorme fedor. Fazia de tudo pra não ser reconhecido. Colocava óculos, gorro, macacão folgado e se encolhia de um jeito que mais parecia alguém com problema na coluna.

O homem-bala fazia as mocinhas e mocinhos suspirarem. Atlético, ágil, poderoso. Mas uma garota em especial tinha o coração dedicado a ele. Era Anita, filha da Mulher Barbada, que por causa disso era ignorada pela maioria. Diziam que logo iam aparecer pelos em seu rosto também. A genética da mãe falaria mais forte. Uma questão de tempo. Pois Anita era quem cuidava da rede de segurança em que Otto, o homem-bala, pousava depois de voar de um extremo ao outro do picadeiro. Antes, preparava o número da mãe que além da barba, possuía uma força incomum. Ela levantava halteres, puxava pianos, carregava dois homens de uma vez só. Depois de levar a mãe de volta ao trailer, ia checar as amarras da rede de Otto. Uma por uma. Eram mais de cinquenta. Como ele era a última atração da noite, havia tempo de sobra para que ela deixasse tudo pronto.

Otto nunca tomou conhecimento do amor de Anita porque era apaixonado pela filha do dono do circo – um carrasco que o colocou pra limpar o cocô do elefante de propósito porque não queria que sua linda herdeira se casasse com ele.

Anita passou a mandar cartas anônimas de amor a Otto. Nelas, prometia que daria sua vida pela dele caso fosse preciso. Também chegou a se oferecer para recolher as fezes dos animais em seu lugar. Isso o encucou. “Então alguém da plateia sabe…”. Ele ficou apreensivo. A moça contava que assistia a todos os espetáculos e viajaria o mundo todo atrás dele. Mas Otto nem sonhava que fosse Anita.

Mas em Polenta do Norte foi diferente. Naquela noite o homem-bala voou em sua roupa de prata mas algo deu errado. No momento em que foi cuspido pelo canhão, ele percebeu que voava um pouco fora de rota. Alguém tinha mexido na mira. O dono do circo parecia sorrir lhe dando tchauzinho lá debaixo. Nas frações de segundos em que isso acontecia ele teve certeza da morte. Fechou os olhos esperando o impacto e nem viu quando a garota franzina correu para aparar sua queda. “Anita? Como você fez isso?”, ele perguntou ainda em choque. “Acho que herdei a força de minha mãe”. Sem querer, ela o apertou no colo, como se fosse um brinquedo. O público urrava delirando com a cena extraordinária que tinham visto.

Foi aí que Otto, emocionado, viu uma pelugem rala por todo o rosto dela. E sem ter como lutar contra aquele desejo estranho, soube que Anita era a mulher barbada de sua vida.

22.03.2011

10 ideias sobre “A Admiradora Secreta do Homem-Bala

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