ENCONTRO COM… A MONGA!

Aconteceu numa tarde de 2007, enquanto eu fazia uma sessão de fotos no tradicional Parque Guanabara, na orla da Lagoa da Pampulha. Quer dizer, a primeira vez que eu topei com a Monga mesmo foi numa feira no interior da Bahia – eu devia ter uns 7 anos de idade. E naquela ocasião, acompanhada de primos mais velhos, saí aterrorizada com o coração escapulindo pela boca. Tinha acabado de assistir a uma versão do King Kong no cinema e ficado muito impressionada. “Vou morrer!”, pensei. Imagine, uma garota morrer de ataque cardíaco por causa de uma atração de parque. Não morri e contei pra todo mundo como eu tinha sido corajosa ao ver a Monga ali, em pessoa. “Mas você não teve medo?”, me perguntavam. “Ah… só um pouquinho!”. Daquele tiquinho que a gente quase faz xixi na calça de nervoso, eu me lembrava, escondendo o jogo.

Voltando aos tempos atuais, foi sem querer que tive a oportunidade de ficar cara a cara com a cara da Monga. E não foi durante um espetáculo corriqueiro dela. Depois de ser fotografada em alguns brinquedos do parque, pedi ao funcionário que estava varrendo a entrada do recinto da mulher-gorila para trocar de figurino por ali mesmo. Os banheiros ficavam do outro lado e a luz estava mudando muito rápido. A noite chegava. “Pode sim. Não tem ninguém aqui. Hoje não tem sessão.” Entrei toda serelepe mas nem pensava em encontrar toda a intimidade da Monga assim de bandeja.

Chamei o casal de amigos fotógrafos. “Não podemos perder essa foto!”.

Troquei de vestido e me coloquei ao lado delas, duas legítimas cabeças de Monga no camarim. Por um instante me lembrei do pânico que senti quando criança. Agora era por estar fazendo algo meio proibido, invadindo aqueles domínios… Foi então que mentalmente pedi licença àquelas senhoras símias e fiz pose pra foto. Não sei o que a dona daquelas cabeças de Monga deve ter pensado ao vê-las no encarte do meu disco, mas é uma de minhas fotos preferidas. Até tem um agradecimento lá…

Tem gente que diz que não se deve contar os sonhos, mas eu não ligo pra isso não. Um dia o carteiro me entregou um jabutigrama. Quando percebi o que tinha em mãos, olhei de novo pra ele e era o Jabuti do Sítio do Picapau Amarelo. “Ele existe mesmo!”, concluí com alegria. Ao abrir a mensagem percebi que o conteúdo não era nada agradável. O Sindicato das Mongas do Mundo Oblíquo me cobrava uma explicação pelo uso da imagem de uma de suas associadas no álbum que lancei. Estava reproduzido o parágrafo inteiro dos Direitos da Monga referente à imagem dela. Comecei a suar frio e liguei pra minha advogada. “Calma, fique tranquila que resolveremos isso.” Logo vi que não havia nenhum contato telefônico, apenas o número de uma caixa postal. Escrevemos uma carta nos colocando à disposição para esclarecer qualquer questão e esperamos por uma resposta.

Uma semana depois, chegava em casa um jabutisedex – o Jabuti dirigia a van, claro. Abri o pacote que trazia um abaixo-assinado com as respectivas fotos de centenas de Mongas vivas de todos os países. A mais antiga delas está com 71 anos! Um cartão vinha junto com um aviso: “Resolva esta questão ou resolveremos do nosso jeito!”. Liguei mais uma vez pra minha advogada e marcamos um encontro no dia seguinte. Fui dormir incomodada com a situação e acordei para beber água várias vezes. Na terceira vez, coloquei um pouco de açúcar no copo para me acalmar. Foi quando avistei da janela uma moça no portão. Ela não tinha tocado a campainha mas me chamava com um aceno de mão. Destranquei a porta e fui ver de perto. Era uma jovem muito bonita e me pediu pra que eu abrisse o portão da rua.

– Está muito tarde! – falei.

– Abra, por favor?

– Não vou abrir!

– Abraaaa!!!, esbravejou.

A moça raivosamente empurrou o portão com as duas mãos e num flash se transformou na Monga. Gritei, mas ninguém consegue ouvir grito de sonho, não é? Tentei correr e como em todo momento de tensão que se preze, tropecei nas escadas. Ela me alcançou. Fechei os olhos esperando pelo pior:

– Puxa, eu só queria um autógrafo! – disse a macacona.

Publicado no jornal Estado de Minas em 02 de fevereiro de 2010

mongasFoto: Pierre Devin

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