A FRANJA DO KILIMANJARO

– Não corto! Deixa minha franja em paz!

– Filho, você tá parecendo aquele cachorro verde do Cebolinha. Ninguém vê mais o seu rosto.

– Eu já tenho quinze anos e uso o meu cabelo como eu quiser…

– Kili, querido, tô falando isso pro seu bem. Você é tão bonito, mas assim… com esse cabelo todo na cara…

– Mãe, nem vem que todos meus amigos usam o cabelo do jeito deles.

– Imagino o sofrimento dos pais… Olha, eu te levo no salão. Não é no barbeiro. A gente vai num lugar bacana, você escolhe um corte moderno.

– Eu já SOU moderno! Você não entende nada mesmo. Todo mundo na escola quer ter uma franja como essa e você tá querendo que eu corte a minha marca registrada?

– É só aparar um pouco. Tá cobrindo completamente seus olhos, filho.

– Mãe, a senhora tá velha. Vê se atualiza um pouco seus conceitos…

– Kilimanjaro! Velha é a sua vó. Aliás, nem ela! Duvido que você com a minha idade ou os setentinha dela, se anime a fazer caminhada na Estrada Real. Só quer saber de internet, de música, de televisão. Não faz uma atividade física!

-Eu faço atividade mental. Se você não sabe, eu treino Gran Turismo pelo menos três horas por dia.

– O quê?! Videogame? E isso é esporte?

– Claro que é! Esporte pra cabeça. Agora me deixa em paz.

– Quero avisar ao senhorito que não tem a menor condição você aparecer na formatura do seu primo desse jeito.

– Então não vou.

– Ah vai sim! Comprei as passagens e mudei o plantão pra gente ir. Espera só seu pai chegar e saber que você não quis cortar a franja.

Mais tarde…

– Kilimanjaro! Sua mãe me contou que não conseguiu levar você pra aparar essa coisa horrível aí.

– Boa noite pra você também, pai.

– Nem me venha com gracinha. Filho meu tem que andar apresentável. Imagine o constrangimento… chegar lá com a família toda reunida e você com essa franja ridícula.

– Pai, olha só: por falar em constrangimento, e esse nome: Kilimanjaro?

– O que é que tem?

– Isso lá é nome de gente? Todo mundo vive me zoando.

– É o seu nome! Um nome único. Não me esqueço a promessa que fiz. Quase morri naquela expedição há 25 anos.

– Então… me deixa ser do meu jeito. Em vez de implicar com minha franja porque você não apara esse seu bigode ressecado de leão-marinho?

– Aí você falou uma verdade, Kili. Querido, isso aí também não está nada bonito. – a mãe que ia passando entrou de novo na conversa.

– Ah, é? Hora da verdade em família! Só mexo no meu bigode no dia que você parar de usar essa moda de calça lá embaixo. Fica aparecendo todas as pelancas. Isso é coisa pra moça nova, Hilda.

– Eu não tenho problema nenhum com meu corpo. Uso e daí?

– É mesmo, mãe. Minhas colegas é que usam esse tipo de calça…

– Kilimanjaro, você não tem o direito de me censurar!

– Nem você, mãe. Nem você, pai. Vamos combinar uma coisa? Cada um cuida da sua vida.

O três se olharam e num momento de cumplicidade terna resolveram parar de implicar um com o outro. No fim de semana seguinte foram juntos à formatura do primo que morava no Sul do país. Alguém comentou:

– Tem gente mais mal-arrumada que aquela ali?

Realmente não tinha. Eles capricharam. Em compensação, faziam planos de uma longa viagem à Tanzânia. E eram agora naturalmente mais mocorongos e felizes.

Publicado no jornal Estado de Minas 01/02/2011

franjaFoto: Nino Andrés

3 comentários em “A FRANJA DO KILIMANJARO

  1. Minha barba já foi alvo de muitas críticas durante minha adolescência. Hoje em dia o incômodo surge quando apareço com a cara “limpinha”, dizem que não sou eu… A solução é me cercar de gente mocoronga e feliz 😉

    E por falar em Kilimanjaro, gosto muito de uma música com esse nome gravada pelos Noisettes, segue o link: http://youtu.be/JDLpk1RR-Lk

  2. Muito bons os seus textos Fernanda! Estou gostando muito de poder lê-los aqui no site… Gostei muito desse em particular, me identifiquei. Prefiro mil vezes pessoas originais do que pessoas “padrão”, que são todas parecidas. Quando ouço gente cochichando, olha o cabelo ou roupa de tal pessoa, penso: “mas quem tem autoridade de ditar esses padrões? aliás, pra que padrões?”

    😀

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