O DESAFIO DOS CHEFES

tudoFoto: Rafael Takai

Chefes estão em todo lugar, mas refiro-me aqui aos chefes de cozinha. Vamos nos esquecer um pouco daqueles profissionais badalados e lembrar dos cozinheiros de casa mesmo. A mãe, o pai ou a empregada que põem na mesa os sabores do dia a dia. Sabor com sustança. Sim, eu também tenho uma quedinha por aqueles programas de culinária que passam na tv paga. Dá gosto só de ver, imagine de comer?! Dá a maior vontade de sair cozinhando tudo aquilo. Até comprei uma faca do tipo profissional, com o peso e corte adequados quando caí por acaso na seção de utensílios de uma loja especializada. Virei uma chefinha do mundo real familiar. Pra fazer aquelas maravilhas da tv, teria que passar boa parte do tempo comprando os ingredientes frescos de primeira qualidade. Mas ainda me falta um comichão, sei lá, o talento mesmo.

Hoje eu comando minha própria cozinha amadora e começo a perceber a encrenca que é alimentar uma família por anos a fio. Penso com pesar nas vezes em que cheguei do colégio reclamando da comida que minha mãe tinha feito… Souflê de legumes? Bolo de vagem? Fígado? Eca! Mãe, num dá pra fazer outra coisa, não? Não. Lá ia eu emburrada comer o que eu não tinha idealizado ao voltar da aula. Pensava sempre: tomara que tenha bife à milanesa, lasanha, estrogonofe, batatinha, macarrão. E tomara que não tenha: dobradinha, frango cozido e tudo aquilo que eu não gostava. O problema (ou a solução) é que lá em casa o que era colocado no prato tinha que ser comido. Sem frescura. E eu comia. Reclamava, mas comia. Depois minha mãe foi amolecendo com a chegada de meu irmão mais novo…

Minha filha de menos de 3 anos já tem suas preferências. Pra ela seria ótimo comer todo dia omelete com macarrão. Bem, ela já percebeu que eu sou filha da minha mãe e vai ter que comer o que é oferecido no menu geral da família. Às vezes, suas refeições demoram um bocado: lemos vários livros, desenhamos minhocas, borboletas, estrelinhas e vacas, mas a comida segue o seu caminho natural. Tem dia que a boca tranca mesmo. Num quero e pronto. Quer sim! Nãooooo! Pode chorar que eu espero. Enfim a fome e a paciência dialogam.

Mas o que me motivou a escrever sobre isso foi o meu irmão mais novo. Ele, um moço que não come cogumelos por causa da textura… Um meninho que era presenteado com peixe totalmente livre de espinhas cuidadosamente retiradas por minha mãe até mesmo quando ele já era meninão feito. Alguém que separava as minúsculas salsinhas da carne moída, fazendo uma instalação na borda dos pratos… Pois essa mesma pessoa agora me conta que comeu ovo de pato cru enterrado por uma semana em terras vulcânicas! Motivo: “ah, eu fui jantar com meu professor e seria uma desfeita, pois é prato típico da cidade dele”.

Alguns dias atrás me mandou um vídeo pela internet, onde ele aparece comendo espetinhos de casulos de bicho-da-seda, com o bicho dentro! Como pode ser isso? E a consideração com os dedos cheirando à peixe da minha mãe? E quantos champinhons eu cortei (ajudando minha mãe) em tamanhos mínimos pra você dizer que não queria comer porque “davam aflição”? E as cebolas catadas? E os frutos do mar que você recusava quando ia passar as férias na casa dos primos do Nordeste? Agora come até tripa de peixe à milanesa com maionese apimentada!

Não precisava ter criado tanto caso antes. Filhos, colaborem.

Mães, insistam. É tudo frescura mesmo.

Publicado no jornal Estado de Minas 17/03/2006

4 thoughts on “O DESAFIO DOS CHEFES

  1. E o curioso é que com o passar dos anos uma saudade dolorida invade o espírito ao lembrar daquele bife acebolado da Vovó.

    Eu torcia tanto o nariz, enquanto resmungava um “Eca! Não vou comer isso!”, mas comia tudinho com medo do chinelinho dela, todo desbotado, acariciar minha bundinha…rs!

    Escrevendo estas palavras veio até o cheirinho gostoso daquela cozinha, deliciosamente mineira.

    Ahhhhh… Se eu pudesse voltar no tempo, comeria aquele bife acebolado com outro astral, com a boca boa mesmo.

    Obrigada por me remeter a um passado tão gostoso e que eu, pirracenta, não soube valorizar.

    A comidinha da minha Avó era caprichada, deliciosa e mineira, sabe como?!

    Abraços!
    Nilian

  2. Na boa, esse espetinho de cobra da foto revira o estômago. Viva o feijão com arroz… faz bem até pros dentes! Eu li isso na Superinteressante 😉

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