ELE NÃO VEIO

Era o dia mais importante da minha vida. E talvez também o da minha mãe que estava mais ansiosa do que eu. Antes disso tudo acontecer, ela me dizia que o meu nascimento tinha sido a coisa mais maravilhosa do mundo pra ela. Agora não. Eu sou a vergonha da família. A vergonha dela. A que não deu certo.

Eu estava linda. Não me acho linda. Mas estava. Dizia um amigo meu que se ele não fosse gay, se apaixonaria por mim naquele instante mesmo. Acreditei.

Acredito na felicidade. Mas ela não existe. Fui trocada por alguém que nem conheço, mas já odeio. Melhor assim. O ódio pode me salvar. Ou me matar de vez. Como é que isso foi me acontecer? Justo quando eu precisava ser só um pouquinho convencional… viro a atração da cidade. Eu passo e todo mundo aponta: é ela!

Agora me lembro… eu devia ter ouvido a minha vó. Fique sozinha, viaje, aproveite a vida. Por que se prender a uma casa? Um homem? Filhos? Seja uma pluma ao vento. Seja feliz! Aí eu sempre pensava se ela era alguém infeliz só porque tinha tudo aquilo. Uma casa linda, família enorme, um homem decente e dedicado. Eu não poderia ter também? Eu não mereço.

Uma pele bonita, cabelos bem lavados e arrumados. Pés e mãos feitos. Maquiagem luminosa. Buffet bem contratado, música suave. Nenhum exagero típico se pronunciava. Tinha conseguido manter o bom gosto, harmonia e dedicação de tanta gente para aquele único dia. Até os parentes que não se falavam há tempos estavam lá.

Ele não veio. Me deixou esperando no altar. Me deixou desmoronando na frente de todos. Senti que as flores das minha tiara murchavam comigo. Meu sorriso foi se transformando em dor tão aguda que nenhuma lágrima conseguiu escapar dos meus olhos. Eu estava seca. Como um deserto que comeu os homens, plantas e animais. Eu praticamente morri vestida de noiva. E todos vieram me acudir com piedade. Mas eu escutei, ah, se escutei… “Bem feito!”. E não foi uma só voz. Várias comentaram a mesma coisa. Nenhuma compaixão verdadeira. Todos queriam me ver cair. E esperaram o dia do meu triunfo se transformar em tragédia.

Ele não veio mesmo. Depois de quatro anos. Ainda estou aqui esperando. Todo sábado, dezoito horas. A mesma igreja enfeitada, o mesmo padre. Eu e meu vestido encardido. Sem ele.

Espero o fim dos cumprimentos do casal daquele dia. E peço pra tirar uma foto com ele apenas. Como todos os outros noivos, ele estranha o meu pedido. Mas aceita constrangido. Vou pra casa e colo no meu álbum mais uma foto de casamento. Que nunca foi o meu.

Publicado no jornal Estado de Minas em 30 de maio de 2008.

www.brunosennaimagens.com

Foto: Bruno Senna

7 thoughts on “ELE NÃO VEIO

  1. Tão triste quanto bonito. Se parece com a história de uma ex-aluna minha, de 70 anos, que “surtou” depois de ter sido abandonada no altar. Como a história que você conta aqui, eu nunca terei certeza se realmente aconteceu…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s