PLANTAÇÃO REGADA A VENTO

Eu fico observando de longe. É agora que começam a aparecer em bando, como se fossem uma espécie de pássaros em época de reprodução. Em dia de sol então… é coisa linda de se ver. Um quadro azul com nuvens de algodão se dissolvendo ao fundo. Em primeiro plano aquelas florzinhas aéreas, soluçando vez por outra com os beliscões de seus maestrinhos. Outras florzinhas são acrobatas, acho que trabalham no Circo do Céu, concorrente do Cirque Du Soleil. O melhor desse circo daqui é que o ingresso custa quase nada…

Tem florzinha que não sabe voar direito ainda – sobe um pouquinho e cai. Mas insiste nas tentivas. Pode ficar um dia inteirinho nelas e voltar feliz pra casa. Aprender a voar demora. Então o negócio é aproveitar o caminho enquanto não se chega lá. Eu já tive a minha quando morava perto do Farol da Barra, em Salvador. Mas eu me lembro mais dela nas fotos do que no ar. Era linda! Grande. Parecia uma rainha. Só que era mais de ficar na terra. Também preferia observar as outras. E isso pode. Aí eu percebi que nunca seria uma maestra de florzinha. Só platéia. E gostei mesmo assim.

Se você é do tipo que enxerga bem, vai ver as linhas finas que unem as pessoas às suas florzinhas. Só que tem hora que estão tão altas que nem a vista alcança mais essa ligação. Se você enxerga meio mal de longe, vai ver então uma certa mágica: os maestrinhos mexendo as mãos aqui embaixo e as coisas acontecendo lá em cima. De quem será aquela? E aquela outra?

Há maestrinhos com auxiliares na função. Pai, mãe, irmãos mais velhos, amigos, vô… até vó já vi! Todos se empenham e colocar no lugar mais alto possível a sua florzinha. “Dá linha!”, “corre!”, “mais pra lá!”. Todo mundo olhando pra cima. Um olho aberto, outro fechado por causa do sol. O vento regando o parque. As cores ocupando o céu.

Não queria falar de coisa ruim, mas tem gente que faz desse bonito passatempo uma arma. Insiste em achar que passar cerol na linha é esperteza. Não é. É irresponsabilidade. Maldade até. Cerol machuca. Mata. Tem cada história horrível de pessoas que ficaram seriamente mutiladas por causa disso. É tão baratinho construir um papagaio. Até de saquinho de supermercado usado dá. Não precisa ter medo de perder o seu. A fragilidade das pipas é que as torna tão encantadoras e leves. Tudo bem que elas vão e às vezes não voltam. Aí você terá uma outra, ainda melhor porque o exercício de construí-las vai torná-lo um artesão hábil. Pense nisso.

Meu canteiro preferido de florzinhas voadoras tem sido o Parque Ecológico da Pampulha. Se você ainda não o conhece, esta é uma estação muito boa! Inverno com jeitão de primavera…

Publicado no jornal Estado de Minas em 21 de julho de 2006.

ceu

4 comentários em “PLANTAÇÃO REGADA A VENTO

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