BICHOS DO JARDIM QUE NÃO SÃO NECESSARIAMENTE MEUS

No jardim de casa mora um sapo enorme de nome Ramirez. Não tenho certeza de que é macho, então o nome alternativo é Rã Mires, no caso de ser uma rã fêmea com excesso de peso. Há diferenças entre sapo e rã, eu sei, mas vale a pena o trocadilho. Ele só aparece em dias de chuva e sempre à noite. Apesar do tamanho, é muito discreto. Algumas vezes achei que fosse uma pedra rolada do canteiro até que de repente se moveu em pulos curtos. Certa vez quase o esmaguei quando pisei no que pensava ser um monte de folhas murchas perto do muro. A única ocasião em que o vi de dia, foi quando descobri seu esconderijo dentro de um vaso velho perto de uma jardineira. Ia lavar o recipiente e ao virá-lo para tirar o resto de terra e lama dentro dele, me aparece o Ramirez de uma vez, ficando a alguns centímetros do meu pé. Dei um grito e fiquei brava com ele. Puxa, Ramirez não faz isso comigo! Ele lentamente abriu e fechou os olhos e se enfiou no canteiro outra vez. Depois desse dia nunca mais foi visto à luz do sol. Ele não gosta de escândalo.

Quando voltei a morar em casa, depois de vários anos experimentando a vida em apartamentos, ganhei duas tartarugas.

Só que elas estavam em Maceió. Minha tia tinha um bocado delas e a taxa de fertilidade estava em alta por lá. Sempre que íamos visitá-la, havia mais montinhos de tartarugas. Todos os vizinhos já tinham ganho filhotes e não havia pra quem mais doar. Era tanta tartaruga que o Papai Noel Tartaruga tinha ido visitar até os amigos da escola dos filhos. Os parentes que moravam em Alagoas também já possuíam sua cota de tartaruga. Eu estava a trabalho em Maceió e respondi com a maior alegria: sim! Quero um casal! Mas como é que vou levar as duas no avião? Temos que pegar autorização com o Ibama, mas a essa hora não dá mais tempo… O vôo era no dia seguinte, muito cedo. Combinamos então que numa próxima viagem a Belo Horizonte, algum parente traria as duas pra mim. Escolhi os nomes: Tatá e Hugo. Tatá servia pra macho ou fêmea, tudo bem. E Hugo se fosse mulher, mudaríamos para Huga. Num tem Eva e Evo? É estranho mas depois pega…

Trouxe comigo as fotos delas apenas. Depois de um ano, minha tia tentava embarcar num vôo com uma caixa de sapato com furinhos contendo Tatá, Hugo e umas folhas de alface. Ao passar pelo raio X, a moça perguntou:

– Esses bichinhos são de brinquedo, né?

– Nãããão, são de verdade! Tô levando pra minha sobrinha em Belo Horizonte.

– A senhora está com a liberação do Ibama?

– Vixe, me esqueci.

– Não pode embarcar.

– Moça, pelamordedeus, ela vai ficar muito triste. Tá esperando essas tartarugas faz tempo.

– Senhora, não podemos liberar sem os papéis. A senhora não sabe?

– Sei, mas eu me esqueci… Tava tão feliz em viajar pra lá depois de tanto tempo.

Tatá e Hugo voltaram do aeroporto pro jardim com a minha prima. Passaram-se mais dois anos sem que ninguém de lá viesse. Logo em seguida minha tia vendeu a casa e o comprador – que já tinha dois teiús – ficou com as tartarugas. Ninguém poderia reconhecê-las mais, emboladas naquele monte de cascos.

Aqui em casa o lugar que seria nosso tartarugódromo virou uma hortinha. Aliás, o Ramirez anda cuidando bem dela! Sabiam que os sapos são ótimos jardineiros noturnos?

Publicado no jornal Estado de Minas em 07 de julho de 2006

ramirezFoto: Fernanda Takai

18 comentários em “BICHOS DO JARDIM QUE NÃO SÃO NECESSARIAMENTE MEUS

  1. Eu tive algumas tartarugas… e minha cadela Cocker enterrava, todas elas vivas!!! Aí que dó!!! Mas teve uma que sobreviveu e encontrei anos depois, bem grandinha, no pátio… O pátio era enorme e a pobre tartaruga, sobreviveu a cadela assassina!!

  2. kkkkkkk…achei hilária a explicação p/ o nme “RAMIRES”, se for fêmea torna-se “Rã MIRES”””…rs..ai ai essa SRA.TAKAI é o máximo .realmente a admiro por varios motivos , mas a criatividade é gritante…amoooooooooooo

  3. Que bom q voltou! todo dia venho aki porque adoro seus textos e porque disse q TODA SEMANA iria postar um texto né Dona Fernanda rs. bjo. Te adoro

  4. Suas tartarugas hoje moram com sua tia Elena, num quintal enorme na companhia do meu cascudo e mais três menores. Ela adora cuidar de todas, sempre as visito. Outro dia fizeram um carrossel de tartarugas os 3 maiores) a minha volta, tinham me reconhecido. Não é brincadeira, tive testemunhas. Beijos.

      1. Vou aguardar ansiosa…as músicas de Sullivan são lindas!!!
        Espero que saia antes do natal.
        Obrigada pela gentileza em me responder, tô mais fã ainda.

  5. Parabéns por tudo! Amei o post!
    Eu também tenho vontade de ter tartaruguinhas, mas até agora não tive a oportunidade (tenho um cachorro ciumento). Mas é um sonho de infância, um dia há de dar certo!
    Para saber qual é o macho, é só observar o casco da barriga, o macho tem uma “covinha” no parte inferior do casco, para que, na hora da copulação ele possa encaixar melhor rs.
    Também temos umas rãs, uma é tão metida e mansa, que esses dias ela estava dormindo na prateleira da sala, ela até nós permite toca-la (de levinho claro rs).
    Outra só aparece em uma época do ano e cheia de filhotinhos, depois de um tempo todos somem.
    Beijo!
    Deus abençoe você e a sua família!

  6. Li alguns de seus textos e gostei muito. Desculpe a pretensão, mas se parecem muito com os que escrevo quando estou inspirada. Eles me fizeram sonhar. São doces, poéticos… Parabéns!

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